Barreiras e incompetência

O Brasil continua perdendo espaço no mercado mundial, mas se mantém como um dos campeões na criação de barreiras. O comércio global de mercadorias deve crescer 2,8% neste ano, mas o País exportará menos que no ano passado, segundo as previsões oficiais. Há muitos anos a política de Brasília tem sido muito mais defensiva do que voltada para a expansão das trocas.

O Estado de S.Paulo

30 Novembro 2015 | 03h00

O resultado, sem surpresa, tem sido negativo para a integração comercial e, modo geral, para o crescimento econômico. Desde o início da crise global, em 2008, o governo brasileiro implantou 148 medidas de restrição ao comércio, 10,3% do total de 1.441 adotadas pelos membros do Grupo dos 20 (G-20), formado pelas maiores economias do mundo. Entre maio e outubro deste ano as autoridades brasileiras adotaram 11 medidas liberalizantes, mas ainda aplicaram nove restrições, e nesse quesito o País só foi superado por Índia e Indonésia, com dez cada uma.

Restrições ao comércio foram implantadas em todo o mundo, nos últimos sete anos, mas, apesar disso, as trocas ainda se expandiram. Os governos com visão mais ampla das condições de crescimento econômico deram prioridade à integração de seus países no mercado global. No Brasil a política econômica voltou-se para a direção oposta. Foram reeditadas estratégias de industrialização dos anos 50 e 60 do século passado – linhas de ação há muito abandonadas nas economias mais dinâmicas e mais competitivas. Os governos petistas preocuparam-se com exigências de conteúdo nacional e incentivos discriminatórios, além de rejeitar ou manter em segundo plano a negociação de acordos com os mercados mais desenvolvidos.

Com essa política, mais uma vez o Brasil ficou para trás, enquanto o mundo avançava. Entre 2008 e 2014 o valor das exportações globais de mercadorias aumentou 17,59% em valores correntes, passando de US$ 16,16 trilhões para US$ 19 trilhões. No ano passado, no entanto, o valor exportado pelo Brasil, de US$ 225,10 bilhões, foi apenas 13,72% maior que o de 2008. A receita comercial chegou a subir entre o início da crise e 2011, mas diminuiu a partir daí, enquanto as trocas de bens cresciam na maior parte do mundo.

Alguns exemplos mostram com muita clareza a diferença entre as economias mais ativas no comércio internacional e a brasileira, muito fechada, envolvida em poucos acordos comerciais, na maior parte com parceiros pouco relevantes, e pouco empenhada na busca de competitividade.

Entre 2008 e 2014, as exportações da Malásia cresceram 17,41% em valor; as da Turquia, 19,38%; as da Tailândia, 28,01%; as da Colômbia, 45,68%; e as da Índia, 65,06%. Mesmo gigantes do comércio exibiram respeitável dinamismo, apesar de partirem de patamares muito altos.

As vendas da Coreia aumentaram 35,70%, de US$ 422 bilhões para US$ 572,66 bilhões. As da China cresceram 63,70%, de US$ 1,43 trilhão para US$ 2,34 trilhões. As dos Estados Unidos avançaram 25,87%, de US$ 1,29 trilhão para US$ 1,62 trilhão. A Alemanha, apesar de fortemente vinculada ao mercado europeu, o mais atingido pela crise, ainda elevou suas vendas de US$ 1,45 trilhão para US$ 1,51 trilhão, com aumento de 10,41%.

O protecionismo nem sequer impediu a tomada de parcelas crescentes do mercado nacional de bens industriais pelos concorrentes de fora, como indicaram vários balanços da Confederação Nacional da Indústria (CNI). O Brasil perdeu espaço até no Mercosul, porque o protecionismo argentino acabou beneficiando os exportadores chineses.

O acúmulo de erros das políticas industrial e comercial também afetou a composição das vendas brasileiras. A participação dos manufaturados no valor das exportações caiu de forma quase ininterrupta, de 52,56% em 2008 para 39,38% em 2014. Todos os números do comércio, assim como a recessão prolongada e o baixo crescimento entre 2011 e 2014, comprovam a inépcia econômica do governo. Mas a presidente continua atribuindo os males brasileiros à crise externa.

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