Basquete brasileiro revive fantasmas e cai para veteranos da Argentina

Técnico do Brasil, o argentino Rubén Magnano se emocionou ao falar da derrota para seu ex-time nas quartas-de-final.

Daniel Gallas, BBC

08 de agosto de 2012 | 20h54

O Brasil perdeu para a Argentina nesta quarta-feira no basquete masculino e foi eliminado das Olimpíadas de Londres 2012. O Brasil chegou a terminar o primeiro quarto da partida à frente dos argentinos, mas foi superado logo no segundo quarto e não conseguiu mais estar à frente no placar, perdendo no final por 82 a 77.

A seleção argentina é responsável pelo "jejum" de três olimpíadas seguidas sem participação do Brasil no basquete. Nos últimos 16 anos, brasileiros acabaram eliminados por argentinos em competições pré-olímpicas.

Em 2010, os dirigentes do basquete brasileiro apostaram em uma arma argentina para recolocar o país no mesmo patamar da geração de Oscar e Pipoca nos anos 80 e 90. O argentino Ruben Magnano - que tinha no currículo um ouro olímpico à frente da seleção de seu país - foi contratado para reformular o basquete brasileiro.

Ele havia sido peça fundamental na década dourada do basquete argentino, quando a seleção do país ganhou bronze em Pequim 2008 e um campeonato mundial em 2002 - além do ouro olímpico em Atenas 2004.

Além da rivalidade histórica entre Brasil e Argentina em praticamente qualquer esporte, o confronto desta quarta-feira pelas quartas-de-final dos Jogos Olímpicos de Londres 2012 era uma disputa entre seleções em momentos bastante distintos.

No lado argentino, veteranos que já conquistaram quase tudo na carreira tentam mais uma medalha no que provavelmente será a última olimpíada de muitos. Já entre os brasileiros, depois do jejum olímpico de 16 anos, havia a necessidade de superar o "fantasma" da Argentina e ir às semifinais de uma Olimpíada - algo que não acontece há 44 anos.

A partida

O Brasil começou melhor do que a Argentina na quadra de North Greenwich Arena, no sul de Londres, e abriu 18 a 13 no placar. No entanto, Nenê logo demonstrou um dos principais defeitos da seleção de Magnano: os erros nos arremessos livres.

Com boa sequência de pontos convertidos por Marcelinho Huertas - que foi o cestinha da partida ao lado de Leandrinho Barbosa, com 22 pontos cada um - o Brasil fechou o primeiro quarto em 26 a 23.

No segundo quarto, os argentinos passaram a marcar melhor e dominaram os rebotes. Ao final do primeiro tempo, já haviam tomado a liderança por 46 a 40 e nunca mais estiveram atrás no placar.

O terceiro quarto foi completamente dominado pelos ídolos veteranos da Argentina, como Manu Ginobili, Carlos Delfino e Luis Scola. Sem conseguir reagir no jogo, o Brasil começou a abusar das faltas, e os argentinos fecharam o quarto com dez pontos de vantagem.

A reação brasileira só surgiu no último quarto, de forma dramática. A seleção chegou a reduzir a diferença para apenas dois pontos, levantando a torcida do Brasil no ginásio, que era maioria. No entanto, uma nova série de erros em arremessos livres causou nervosismo nos brasileiros. A Argentina voltou a dominar os rebotes, e fechou a partida em 82 a 77.

Os arremessos livres não convertidos pelo Brasil durante a partida foram fundamentais para definir o placar. O Brasil acertou apenas metade dos seus lances livres, contra 68% de aproveitamento dos argentinos. Caso tivesse aproveitamento semelhante ao argentino no jogo, o Brasil teria conseguido ao menos empatar no placar.

Trabalho

Ao final da partida, se esforçando para segurar as lágrimas nos olhos, o técnico do Brasil, o argentino Ruben Magnano, elogiou seus jogadores e disse ser "uma honra defender as cores do Brasil".

O técnico disse que o trabalho feito nos últimos anos é como "plantar sementes", e que os resultados mais importantes só surgirão com o tempo.

"Não é conformismo. Sei que os objetivos que temos precisam ser alcançados dentro de um marco de realidade. E este hoje é o nosso marco de realidade. Precisamos seguir trabalhando", disse.

Sobre o baixo aproveitamento do Brasil nos arremessos livres, Magnano disse que esse é um dos defeitos a se trabalhar da seleção de basquete daqui em diante.

"Em todo o torneio, tivemos um denominador comum que foi o baixo aproveitamento de tiros livres. E só tem uma forma de resolver isso: treinando. E não em 45 dias de concentração, mas treinando o ano todo. Os arremessos se consegue melhorar arremessando. Não conheço outra fórmula."

O ala Guilherme Giovannoni disse que sofreu muito com a derrota para a Argentina, mas elogiou o trabalho do técnico, a quem atribui uma mudança de atitude entre os brasileiros nos últimos anos.

"Nós sabíamos do favoritismo deles, por ser um time mais experiente do que nós e por terem passado por mais situações deste tipo do que nós. Mas nós sabíamos da nossa força também", disse o jogador.

"Eu quero fazer um agradecimento. Se hoje a equipe [brasileira] tem essa competitividade, é por causa do Ruben. Independente de quem for - já tivemos jogos contra Argentina, Estados Unidos - hoje jogamos olhando na cara deles, respeitando, mas jogando de igual para igual."

A geração de Delfino, Scola e Ginobili terá pela frente agora uma dura tarefa para coroar o basquete argentino com um ouro: vencer nas semifinais os americanos, que atropelaram a Austrália nas quartas-de-final disputadas logo após o jogo do Brasil.

Após a vitória contra os brasileiros, os jogadores da Argentina vibraram muito o feito.

"Isso é inacreditável. Para uma equipe com média de idade de 32 anos, é muito valioso chegar a uma semifinal de Olimpíadas", disse Manu Ginobili.

"Agora contra os Estados Unidos, teremos que tratar de buscar um milagre." BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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