BC: aperto deve ser 'suficientemente prolongado'

O Banco Central disse que o cenário para a inflação brasileira não melhorou desde sua última reunião e que o ciclo de aperto monetário deverá ser "suficientemente prolongado".

VANESSA STELZER, REUTERS

28 Abril 2011 | 11h04

Os comentários constam da ata da última reunião do Comitê de Política Monetária, documento considerado "hawkish" pelo mercado. No Copom da semana passada, a Selic foi elevada em 0,25 ponto percentual para 12 por cento, por 5 votos a 2, diminuindo o ritmo de 0,50 ponto usado até então.

"O Copom entende que o cenário prospectivo para a inflação não evoluiu favoravelmente desde sua última reunião... (e) reconhece um ambiente econômico em que prevalece nível de incerteza acima do usual, e identifica riscos à concretização de um cenário em que a inflação convirja tempestivamente para o valor central da meta", afirmou o documento, divulgado nesta quinta-feira.

"O Copom entende, de forma unânime que, diante das incertezas quanto ao grau de persistência das pressões inflacionárias recentes, e da complexidade que envolve hoje o ambiente internacional, o ajuste total da taxa básica de juros deve ser, a partir desta reunião, suficientemente prolongado", acrescenta a ata.

Para Jankiel Santos, economista-chefe do Espírito Santo Investment Bank, a ata deve acabar com as previsões de possibilidade de parada da alta na reunião de 7 e 8 de junho.

"É uma ata bastante dura, talvez a mais hawkish da nova diretoria. Há uma clara sinalização de que houve uma reavaliação da estratégia de política", disse Santos, que vai revisar suas projeções sobre a Selic para cima.

"A sinalização é de 'vamos fazer o suficiente para trazer a inflação do ano que vem (para o centro da meta)'. Estava havendo uma perda de credibilidade do BC nesse sentido, e aparentemente agora ele recupera isso", acrescentou.

O BC vinha dizendo até agora que buscava uma convergência suave para a meta e que trabalharia para que isso ocorresse em 2012. A postura era criticada pelo mercado, que seguidamente vem elevando suas previsões de inflação, que para este ano estão em 6,34 por cento e para 2012 estão em 5 por cento. A meta de inflação dos dois anos tem centro em 4,5 por cento e tolerância de 2 pontos de tolerância.

Sobre a divisão da última reunião, a ata detalhou que parte dos membros do BC acha que o balanço de riscos pedia a manutenção do ritmo de ajuste da taxa Selic, de 0,50 ponto, para conter os riscos de que as pressões inflacionárias recentes se transmitam ao cenário prospectivo.

A maioria do Copom, no entanto, acredita que já foi feito um "substancial esforço anti-inflacionário" nos últimos meses e que há defasagens na transmissão dessas ações para a economia, "o que, associado à decisão de se prolongar o ciclo de ajuste, recomendaria uma reavaliação da estratégia de política monetária".

O BC disse prever dois momentos para a inflação neste ano, com a inflação em 12 meses neste trimestre e no próximo permanecendo em níveis similares ou superiores aos do primeiro trimestre, mas desacelerando no quarto trimestre, indo em direção à trajetória de metas.

POLÍTICA FISCAL E CRÉDITO

O comitê ressaltou, no entanto, que seu cenário central considera que o governo fará sua parte, do lado fiscal, e que o crédito irá desacelerar para um ritmo moderado, o que ainda não aconteceu.

"O Copom reafirma que o cenário central para a inflação leva em conta a materialização das trajetórias com as quais trabalha para as variáveis fiscais... (e) destaca que o cenário central também contempla moderação na expansão no mercado de crédito."

Apesar de discordar, o mercado vinha prevendo que o fim do ciclo estaria próximo de acordo com as declarações do BC, o que parece pouco provável agora.

"O mercado deve caminhar para duas altas de 25 (0,25 ponto percentual) ou mais, e não duas altas de 25 ou menos", como vinha ocorrendo até então, disse Vladimir Caramaschi, economista-chefe do Crédit Agricole Brasil.

No mercado de juro futuro, as projeções de curto prazo subiam, enquanto as mais longas caíam, com o mercado vendo um aperto mais concentrado agora, ao contrário da visão anterior de parada no curto prazo e retomada mais para a frente.

ATIVIDADE

Sobre o cenário externo, o BC notou que a volatilidade e a aversão ao risco se elevaram desde sua última reunião.

Em relação à atividade interna, o Copom avaliou que "embora esteja em curso moderação, em ritmo ainda incerto, da expansão da demanda doméstica, são relativamente favoráveis as perspectivas para a atividade econômica".

Para o BC, a atividade doméstica continuará sendo favorecida pelo vigor do mercado de trabalho.

(Reportagem adicional de Nathália Ferreira)

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