Beleza de Nefertite vira joguete político

Arqueólogo egípcio aproveita reinauguração de museu em Berlim para acusar alemães de saque cultural

Michael Kimmelman, O Estadao de S.Paulo

23 de novembro de 2009 | 00h00

Enquanto milhares formavam fila para ver Nefertite no Neues Museum, reaberto recentemente na cidade de Berlim, uma nova escaramuça eclodiu na guerra cultural. O principal arqueólogo do Egito, Zahi Hawass, anunciou que seu país quer a devolução imediata de sua rainha, a menos que a Alemanha consiga provar que o busto de 3.500 anos da mulher de Akhenaton foi tirado legalmente do Egito há quase 100 anos. "Não somos caçadores de tesouros", disse Hawas. "Apenas queremos que seja provado de maneira inequívoca que a obra não foi roubada." E, então, ele afirmou ter certeza de que a obra, sim, foi roubada.

A globalização, ao que parece, só intensificou as diferenças culturais entre as nações, sem fazê-las retroceder. As forças do nacionalismo adoram explorar a cultura porque ela é simbólica, economicamente potente e enquadra a política da identidade num contexto legal que tende a colocar Davi contra Golias.

Hawass também atacou a França recentemente, exigindo que o Louvre devolvesse cinco fragmentos de afrescos comprados pelo museu em 2000 e 2003 durante leilão realizado por uma galeria. Esses pertenciam a uma tumba de 3.200 anos localizada perto de Luxor e ficaram armazenadas no museu. O Egito já tinha feito a exigência antes, mas desta vez o país suspendeu as escavações de longo prazo do Louvre em Saqqara, perto do Cairo, e disse que interromperia a colaboração com as mostras do museu. A França entendeu o recado. O país prometeu devolver os fragmentos imediatamente.

O fato de Hawass ter feito acusações em relação a Nefertite e suspendido as escavações do Louvre depois de o ministro da cultura do Egito, Farouk Hosny, ter sido preterido na escolha do próximo diretor geral da Unesco, não escapou à atenção de Paris, Berlim e Cairo. No final do mês passado, o cargo foi entregue a um diplomata búlgaro. Hosny teria sido o primeiro árabe a ficar com o posto, e o presidente egípcio Hosni Mubarak depositou parcela significativa de seu prestígio na possibilidade de ele ser nomeado para a diretoria da agência cultural das Nações Unidas.

Mas grupos judaicos e destacados intelectuais franceses e alemães fizeram campanha contra Hosny (mas o governo israelense, não). Em audiência no parlamento egípcio, quando perguntaram a Hosny sobre a presença de livros israelenses na biblioteca de Alexandria, ele respondeu: "Devemos queimar esses livros. Se houver algum livro israelense (no acervo), eu o queimarei pessoalmente diante de vocês." Isso fez com que Elie Wiesel, Claude Lanzmann e Bernard-Henri Lévy pedissem nas páginas do Le Monde que Hosny não fosse escolhido para o cargo, citando uma frase dita por ele em 2001 ("A cultura israelense é uma cultura inumana"), que tem seu fundamento no roubo.

Depois desse episódio, Hosny disse ao mesmo jornal francês que sentia muito pelos comentários feitos e que "nada me é mais remoto do que o racismo, a negação dos outros e o desejo de ferir a cultura judaica ou qualquer outra cultura". E assim Hosny não foi escolhido para o cargo, fato que ele atribuiu a uma conspiração judaica.

Seja como for, dias após a decisão sobre a Unesco, Hawass atacou França e Alemanha. Quando indagado sobre o momento curioso em que suas acusações foram feitas, ele insistiu não haver relação entre os episódios, afirmando ter pedido há dois meses que os franceses devolvessem os artefatos.

Ao longo dos anos, o Egito fez solicitações ocasionais pela devolução de Nefertite, reiteradas quando o clima político se mostra receptivo. Os alemães destacam que Ludwig Borchardt, descobridor de Nefertite em Tel el Amarna, em 1912, recebeu a aprovação do Egito para levá-la a Berlim. Há pouco tempo o Iraque exigiu novamente que a Alemanha devolva o Portão de Ishtar, da cidade antiga da Babilônia, escavado e enviado a Berlim antes da 1ª Guerra.

No caso do Iraque, o governo parece considerar que a ambivalência da Alemanha diante da guerra atual pode ajudar a convencer a opinião pública alemã a devolver o portão, assim como o regime de Saddam Hussein tentou aplicar o golpe do repatriamento em 2002 como tática de negociação com a ONU para definir a admissão de inspetores de armas no país.

Para o público egípcio, a derrota de Hosny foi outra condenação da liderança estagnada do país. "Derrota, fracasso e retrocesso continuarão a seguir este regime, cujos membros implementam unicamente medidas para se perpetuar no poder", escreveu Muhsin Radi, parlamentar membro da Irmandade Muçulmana, no diário Al-Dustour.

A única arma potente que resta ao país pode ser a questão das antiguidades. Ela toca o sentimento popular e o orgulho nacional. Enquanto o mundo da arte gosta de ponderar sobre os méritos e infortúnios de se expor a arte proveniente de um país em outro lugar, ou sobre as injustiças que podem ter resultado dos séculos de reunião dos acervos imperialistas, a verdadeira questão por trás das exigências egípcias é, como em tantos casos semelhantes, o nacionalismo. A arte se transforma numa bola de futebol política.

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