Belga é eleito 1º presidente da União Europeia

Fracasso na candidatura de Blair abriu caminho para escolha de Rompuy; britânica é eleita chanceler

Andrei Netto, O Estadao de S.Paulo

20 de novembro de 2009 | 00h00

Como desejava o ex-secretário de Estado dos EUA Henry Kissinger, a partir de 1º de dezembro o mundo terá não um, mas dois números de telefone para discar à procura dos líderes políticos da Europa. Cinquenta e dois anos após a assinatura do Tratado de Roma, a União Europeia escolheu ontem um presidente. Seu nome é Herman Van Rompuy, de 62 anos, um líder discreto que, na função de premiê da Bélgica, apaziguou um país à beira da fissura. Ao seu lado, a diplomata britânica Catherine Ashton foi escolhida vice-presidente e alta representante para Relações Exteriores - cargo equivalente ao de chanceler - pelo colégio eleitoral, formado pelos 27 chefes de Estado e de governo.

A escolha vazou no início da noite de ontem, nos corredores do Conselho Europeu, em Bruxelas, antes do anúncio oficial, e se mostrou menos traumática do que o esperado. Uma verdadeira batalha diplomática se anunciava pela aparente resistência do premiê britânico, Gordon Brown, em renunciar ao apoio ao seu antecessor, Tony Blair. Encurralada por velhas questões diplomáticas - como a parceria com George W. Bush, o apoio aos EUA na guerra do Iraque, em detrimento da posição da França e da Alemanha -, pela impopularidade e pelo crescente euroceticismo de seu país, a candidatura implodiu.

A via de um consenso foi aberta pelo acordo entre o Partido Popular Europeu (PPE), de centro-direita, e o Partido Socialista Europeu (PSE), de centro-esquerda, que garantiria a cadeira de presidente a um liberal, e a de chanceler a um socialista ou trabalhista.

Assim, a designação da baronesa Catherine Ashton de Upholland, ex-presidente da Câmara dos Lordes e desde 2008 comissária de Comércio da UE, ao cargo de chanceler, facilitou a negociação. Mulher, britânica, originária da esquerda, ela trazia na bagagem o peso de uma potência - mas não o de uma profunda trajetória em relações exteriores. "Creio que minha experiência vai falar por si", rebateu. "Julgue-me pelo que fizer, e eu creio que vocês ficarão orgulhosos."

A escolha da alta representante de Relações Exteriores abriu caminho para que um homem, líder político de um pequeno país, de direita cristã, fosse o designado. Com Blair fora do páreo e com as desistências do premiê da Holanda, Jan Peter Balkenende, não houve mais empecilhos para Rompuy, que passou a contar com o apoio da Alemanha, da França, da Grã-Bretanha e da Itália.

Doutor em Economia, ele ganhou respeitabilidade no meio político após ser nomeado 48º primeiro-ministro do reino da Bélgica em 30 de dezembro. Desde então, apaziguou o país, atormentado pelo sentimento secessionista entre belgas de origem holandesa (Flandres) e francesa (Valônia).

HERMAN QUEM?

Sua capacidade de diálogo casa com o perfil que os chefes de Estado e de governo da UE, como o presidente da França, Nicolas Sarkozy, e a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, queriam dar ao cargo: tom conciliador, capacidade de gestão e, sobretudo, perfil baixo no exercício do poder, uma "virtude" que não ofuscaria o brilho internacional dos líderes atuais.

"Houve muito debate sobre o perfil", admitiu Rompuy em sua primeira entrevista como presidente europeu. "Mas só há um perfil aceitável: de diálogo, unidade e ação."

O problema é que seu perfil talvez seja baixo demais para a expectativa criada: a nomeação de um "George Washington europeu", uma alusão ao primeiro presidente dos EUA. Ontem, multiplicava-se pela Europa a brincadeira: "Herman quem?". A ironia resumia a falta de expressão internacional dos dois escolhidos. Às dúvidas, Rompuy respondeu com personalidade, quando questionado sobre a quem o presidente Barack Obama deveria telefonar caso quisesse contatar o líder europeu: "Estou ansioso pelo primeiro telefonema."

DESAFIOS

Economia - Apesar de o bloco ter saído da recessão, o desemprego deve permanecer acima dos 10% em 2010 e 2011

Energia - Cerca de 50% da energia consumida pela UE vem do exterior e, caso não sejam tomadas medidas, a dependência externa será de 70% em 2030

Defesa - O grupo precisa de uma política única para estabilizar suas relações com seus vizinhos do Leste e ao sul do Mediterrâneo

Imigração - UE precisa de milhões de imigrantes para enfrentar o envelhecimento de seu povo, mas tem problemas com o grande fluxo de ilegais sem qualificação

NOVOS CARGOS

Van Rompuy, o "premiê poeta"

Herman Van Rompuy, de 62 anos, ocupa o cargo de primeiro-ministro da Bélgica há menos de um ano, mas já obteve avanços importantes na questão que divide o país entre flamengos, que falam holandês, e valões, que falam francês. Antes de assumir o gabinete em dezembro de 2008, Rompuy foi presidente da Câmara e também ministro do Orçamento (1993-1999). Autor de seis livros, Van Rompuy é blogueiro e ficou conhecido como o "premiê poeta" por ser um grande conhecedor dos poemas haicai, de origem japonesa.

Catherine é novata em diplomacia

A britânica Catherine Ashton, de 53 anos, é mais conhecida em Bruxelas do que em seu próprio país por ter desempenhado nos últimos anos o cargo de comissária europeia de Comércio. Catherine tem uma carreira promissora, mas discreta. No cargo há apenas um ano, ela conseguiu bons resultados, como a conclusão e a negociação de acordos importantes. Formada em Economia, Catherine ainda é considerada uma novata no campo diplomático, mas, segundo pessoas próximas, ela é uma "mulher capaz, que aprende rápido".

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