Benefício fora da crise é questionado

Economistas não veem sentido em medidas anticíclicas com a economia em recuperação

Marcelo Rehder e Cleide Silva, O Estadao de S.Paulo

26 de novembro de 2009 | 00h00

As seguidas concessões de benefícios fiscais feitas pelo governo federal, em um momento de recuperação da economia e de dificuldades na arrecadação, são questionadas por especialistas. Para alguns economistas, não faz sentido adotar medidas anticíclicas numa economia em crescimento.

"O governo poderia ter agido mais rapidamente no fim de 2008 e ter dado os incentivos para mais setores", diz o economista chefe da MB Associados, Sergio Vale. "Agora, com a economia em recuperação pelas próprias pernas, começa a ficar difícil imaginar justificativa para manter benefícios."

O consultor tributário Clóvis Panzarini também diz ter dúvidas em relação a fazer política anticíclica "nesse momento em que a economia já começou a rodar". Por outro lado, observa que uma eventual queda na arrecadação poderia comprometer o superávit primário.

O consultor tributário Amir Khair descarta essa possibilidade. "A redução do IPI será mais que compensada pelo aumento da arrecadação de outros impostos, como IR, PIS e Cofins."

Já o economista da LCA Consultores, Douglas Uemura, acredita que a manutenção do IPI para carros flex, que respondem por 88,6% das vendas, vai manter o mercado aquecido no primeiro trimestre de 2010. Ele lembra que, em relação ao fim de 2008, os carros hoje estão em média 7% mais baratos.

A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) informa que a redução do IPI em vigor desde dezembro possibilitou vendas de 400 mil veículos a mais do que o mercado absorveria sem a medida. Por essa conta, as vendas cairiam 14% ante 2008, para 2,4 milhões de unidades.

Os resultados positivos da indústria automobilística neste ano, que terá venda recorde de mais de 3 milhões de veículos, não serão repicados na cadeia produtiva do setor em igual proporção. Fabricantes de autopeças, aço, pneus e plásticos projetam resultados similares ou inferiores aos de 2008, que teve o último trimestre atingido pela crise financeira internacional. Ainda assim, afirmam que o desempenho seria pior sem os incentivos que aumentaram as vendas de carros.

As autopeças contabilizam, até outubro, queda de 21,9% no faturamento na comparação com igual período do ano passado. O nível de emprego, embora tenha reagido, está defasado em 3,7 mil postos em relação ao fim de 2008.

As siderúrgicas, que fornecem 30% do aço às montadoras, acreditam que o IPI reduzido ajudará a manter as atividades no nível atual, mas não devem representar acréscimo nas vendas. Já o Instituto Nacional dos Distribuidores de Aço (Inda) projeta queda de 10% nas vendas neste ano.

A redução nas exportações é a principal explicação para a queda da produção, também das montadoras, que será 5% inferior a 2008.

COLABOROU NATALIA GÓMEZ

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