Bergoglio não deve mudar dogmas sobre fé e moral

Novo papa é um ortodoxo em termos de doutrina e, como dizem especialistas, 'um jesuíta nunca deixa de ser um jesuíta'

MARCELO GODOY, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2013 | 04h17

Jorge Mario Bergoglio é a síntese dos dois principais papáveis que entraram no conclave. O argentino é próximo ao movimento Comunhão e Libertação assim como o cardeal italiano Angelo Scola. É também um latino-americano, a exemplo do brasileiro Odilo Scherer. Se os desafios maiores da Igreja eram a crise do catolicismo na Europa e a nova evangelização, buscando enfrentar os problemas culturais existentes na África e na Ásia, nada melhor do que a Companhia de Jesus e um papa chamado Francisco para a tarefa.

Bergoglio é um homem de 76 anos e não um jovem como muitos apostavam que seria o novo papa. Trata-se de um ortodoxo em termos de doutrina; fiel, portanto à linha de Bento XVI. Não se deve, também, esperar dele mudanças nos dogmas da Igreja a respeito de fé e moral. Não foi nisso que pensaram os cardeais que o escolheram. Ele é um jesuíta - o primeiro da história a se tornar papa - e "um jesuíta nunca deixa de ser jesuíta, aconteça o que acontecer ele carrega de forma indelével a marca da Companhia de Jesus", lembra o coordenador do Núcleo Fé e Cultura da Pontifícia Universidade católica de São Paulo (PUC-SP) e professor de teologia, Francisco Borba.

Para entender isso é preciso conhecer a história da Companhia de Jesus. Fazia 19 anos que Martinho Lutero havia sido excomungado pelo papa Leão X quando outro papa - Paulo III - confirmou a criação da Ordem em 1540 por meio da bula Regimini militantis Ecclesiae. Foram os jesuítas que enfrentaram a reforma protestante na Europa. Tornaram-se a tropa de choque de um catolicismo que via multidões passarem para o lado de Lutero. Se Joseph Ratzinger cresceu em uma Baviera católica, por exemplo, isso se deve a esses missionários. Eles criaram o catolicismo na América Latina - José de Anchieta, Manoel da Nóbrega e Antonio Vieira eram jesuítas - e o levaram à Índia, China, Indonésia e Moçambique.

Anteontem, em entrevista ao Estado, o filósofo, padre e coordenador internacional da revista Communio, Jean-Robert Armogathe, havia chamado a atenção para a importância que devia ter para a Igreja encontrar uma resposta aos desafios da nova evangelização, tanto na Europa descristianizada, quanto no Oriente e na África. Ontem, após o anúncio do novo papa, Armogathe lembrou o fato de o novo papa ter sido o ordinário dos católicos de rito oriental na Argentina, ou seja era responsável por atender espiritualmente maronitas, melquitas, coptas, armênios etc. Mais uma vez, portanto, procurou-se em Bergoglio mais do que um missionário, buscou-se um olhar para o Oriente.

Nome. O nome adotado pelo papa Bergoglio só confirma essa escolha pelas Índias. É lícito pensar que um jesuíta que escolhe o nome de Francisco quer homenagear um dos fundadores de sua ordem: São Francisco Xavier. Podia escolher o nome de outro fundador: Inácio. Mas não. Quis se chamar Francisco. Por quê? A escolha se explica mais uma vez pelo desafio atual da Igreja. Francisco Xavier deixou Portugal em 1541 e viajou para as Índias com Martim Afonso de Souza.

Em Moçambique, o futuro santo iniciou seu trabalho missionário, convertendo os primeiros africanos ao catolicismo. Depois esteve em Goa, na Índia, na Indonésia, no Japão e na China. Morreu, em 1552, aliás, quando tentava entrar nesse país, onde atualmente os cristãos vivem, em sua maioria, a realidade de uma Igreja clandestina, perseguida pelo governo comunista. O corpo de Francisco Xavier está em Goa, antiga possessão portuguesa na Índia.

Armogathe lembra que as origens italianas de Bergoglio - havia 28 cardeais desse país no conclave - devem ter facilitado seu caminho para o trono de São Pedro. "Ele é o sinal para o clero de que a Igreja está entrando em um novo tempo: é um papa velho, um sábio, que tem uma vida espartana", disse o professor Borba. Um novo João XXIII? "Não, não creio", afirma Borba. "Bergoglio representa os valores da tradição com uma forte presença social. É uma síntese entre Scola e d. Odilo. Fico impressionado com os caminhos e respostas que o Espírito Santo, que Deus dá para a sua Igreja", disse Borba.

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