Bergoglio passa de vilão a ídolo do kirchnerismo

Início cativante do pontificado de Francisco leva peronistas a esquecer desavenças com seu desafeto e a tentar tirar casquinha de sua popularidade

ARIEL PALACIOS, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2013 | 02h06

A Argentina - país caracterizado por baixa religiosidade em comparação com seus vizinhos latino-americanos - está em clima de intenso "papismo", já que as imagens do cardeal Jorge Bergoglio, atual papa Francisco, estão por todos os lados. No pé do Obelisco (o monumento símbolo de Buenos Aires), na Avenida Nove de Julho, um gigantesco painel do sumo pontífice de 88 metros de largura por 44 metros de altura, instalado pelo governo da capital na fachada de um prédio, reflete a súbita conversão dos argentinos.

A ironia é que essa virada na sociedade argentina foi mais notória entre os peronistas seguidores da presidente Cristina Kirchner. Na última década, eles não economizaram ataques a Bergoglio - um crítico persistente da política de confronto da presidente, de seus planos econômicos que permitiram o ressurgimento da escalada inflacionária e da lei de casamento entre pessoas do mesmo sexo. Depois do conclave que elegeu Francisco, eles passaram a elogiar o novo papa, que flertou brevemente com uma ala ultranacionalista do peronismo (a Guarda de Ferro) no início dos anos 70.

Uma das guinadas mais radicais foi protagonizada por Hebe de Bonafini, líder das Mães da Praça de Mayo, militante kirchnerista defensora do grupo terrorista basco ETA, que durante anos, inclusive no dia de sua eleição, acusou Bergoglio de "criminoso" pelas denúncias - nunca provadas - de que ele teria colaborado com a ditadura militar (1976-83). "Sinto uma esperança de mudança no Vaticano", declarou Bonafini, que antes chamava o cardeal de "fascista". Nos últimos dias tornou-se uma enfática defensora do "profundo trabalho" de Francisco nas favelas portenhas e enviou um "abraço com respeito" ao novo papa.

Placa. O deputado portenho kirchnerista Juan Cabandié, filho de desaparecidos da ditadura - que no dia do anúncio da eleição de Bergoglio recusou-se a endossar uma declaração de homenagem -, dias depois votou a favor da colocação de uma placa de bronze na casa de Bergoglio, no bairro de Flores.

Intelectuais kirchneristas, horrorizados com a virada dos próprios líderes, começam a abandonar discretamente o governo, estupefatos pelo fim do discurso anti-Bergoglio. A oficialização da guinada ocorreu durante a visita de Cristina ao Vaticano. Ao sair da reunião, Cristina - que cada vez mais cita Deus e a Virgem Maria em seus discursos - disse que ficou emocionada por ter sido "beijada por um papa". Enquanto era arcebispo primaz da Argentina, Bergoglio teve uma dúzia de pedidos de audiência com a presidente recusada.

A acelerada conversão do kirchnerismo já é citada com ironia pela oposição como "o primeiro milagre" do novo papa. "Antes criticávamos o cardeal Bergoglio. Mas, agora que ele recebeu o Espírito Santo, ele não é mais Bergoglio - ele é o papa Francisco", disse, sem esconder o sarcasmo, um deputado peronista.

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