Berlusconi segue no olho do furacão

Há dez dias, o primeiro-ministro da Itália, o extravagante e provocador Silvio Berlusconi, foi atacado em Milão por um desequilibrado e atingido por uma réplica em miniatura do Domo de Milão. O golpe foi brutal. Atônito, o rosto respingando sangue, e tudo parecendo uma cena de filme de terror, Berlusconi foi levado por seus guarda-costas.

Gilles Lapouge, O Estadao de S.Paulo

24 Dezembro 2009 | 00h00

Na multidão, espanto, indignação. "Ele perdeu dois dentes", diz alguém. "Mas vai ganhar quatro ou cinco pontos nas sondagens de opinião." Não deu outra. Segundo o jornal Corriere della Sera, o índice de aprovação de Berlusconi, que estava em 48,5%, subiu para 60% após a agressão.

Como era previsível, a internet entrou na confusão. Há alguns dias, roda um vídeo no YouTube que já foi visto por dezenas de milhares de internautas. Trata-se de um filme de quatro minutos. Seu título? "Desliguem a televisão. Liguem seus cérebros." As imagens que se seguem pretendem mostrar a manipulação.

SPRAY

As provas? O sangue não corre imediatamente após os golpes e o colarinho da camisa de Berlusconi não está vermelho. O sangue aparece um pouco mais tarde, quando Berlusconi coloca o rosto nas mãos, com um saco plástico no qual teria ocultado um spray com sangue. Outra prova: os guarda-costas olham para Berlusconi e não para a multidão, o que teria sido, assim parece, natural.

A maioria das pessoas razoáveis que viu o filme não está convencida.

Mesmo o juiz antimáfia Antonio Di Pietro, que é um adversário feroz de Berlusconi, disse: "Esse vídeo é uma estupidez." Entre os raros que dão crédito a esse filme, um jornalista célebre, Giorgio Bocca, que compara a agressão em Milão ao incêndio do Reichstag que, em 1933, foi atribuído aos comunistas enquanto havia sido ateado por um jovem exaltado, Van der Lubbe, que era cúmplice dos nazistas. A manobra permitiu que Adolf Hitler acusasse os comunistas e decretasse estado de exceção.

VEDETE

Mais uma vez, nesta ocasião, percebe-se que a internet se tornou um ator-vedete da vida política, seja por defender a causa da liberdade, como ocorreu recentemente por ocasião das revoltas em Teerã contra o poder iraniano fascista de Mahmoud Ahmadinejad - cujas imagens puderam se espalhar por todo o mundo -, seja a serviço de alguns iluminados, manipuladores, com o cuidado não de desvendar a verdade mas, ao contrário, de ocultá-la.

Será que o aumento da popularidade que a agressão em Milão valeu a Berlusconi vai se prolongar ou se afirmar? A maioria dos especialistas não pensa assim. O rosto machucado de Berlusconi provocou um reação de compaixão, mas a razão certamente vai retomar seus direitos.

E a razão, diz a oposição a Berlusconi, é ver que esse homem conduz o país para o abismo. A Itália é um país gravemente enfermo. Os antagonismos, os ódios se exasperam. O Prêmio Nobel de Literatura Dario Fo, escreveu: "Quem não segue a linha do chefe (de Berlusconi) vira um terrorista. Estamos numa curva perigosa."

* Gilles Lapouge é correspondente em Paris

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