Biografia vira disputa editorial

Fundação do PT briga por direitos de livro que será lançado

Júlia Dualibi e Pedro Venceslau, SÃO PAULO, O Estadao de S.Paulo

29 de outubro de 2009 | 00h00

Na esteira do lançamento da cinebiografia do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em janeiro de 2010, o mercado editorial começou a se mover para pegar carona no filme que pretende ter o maior público desde a chamada retomada do cinema nacional, em 1995. O resultado é uma disputa acirrada entre editoras que querem relacionar suas obras à produção de Fábio Barreto.

A Fundação Perseu Abramo, ligada ao PT, pretende relançar o livro Lula, o Filho do Brasil, de mesmo nome do filme e no qual foi baseado o longa. A obra, da escritora Denise Paraná, foi lançada em 2003 pela editora da fundação. A Perseu Abramo, no entanto, entrou em conflito com a editora Objetiva, que pretende colocar no mercado, em novembro, A história de Lula, o filho do Brasil. Escrito também por Denise, o novo livro causou celeuma entre as editoras, levando a fundação a estudar recurso na Justiça para proteger a obra que lançou em 2003.

O departamento jurídico da Perseu Abramo pediu à autora que enviasse uma cópia do novo livro para compará-lo com o anterior e definir qual medida tomar, conforme divulgou ontem a coluna Direto da Fonte. Em uma primeira leitura, identificou que a autora passou a narrativa para a terceira pessoa, suprimiu alguns capítulos e acrescentou outros. Mas o conteúdo, no geral, é muito parecido.

Tanto Denise como a Objetiva alegam se tratar de obras completamente diferentes. "Trata-se de um livro totalmente novo. O primeiro é a minha tese de doutorado. Tem linguagem muito acadêmica", afirma a autora. O livro a ser lançado pela Objetiva, diz ela, será romanceado e aprofundará a história de dona Lindu, mãe de Lula, figura central no filme de Fábio Barreto. "Não é coincidência que seja assim. A Denise é corroteirista do filme", declarou Roberto Feith, da Objetiva.

A Objetiva mostrou ao Estado documento assinado em setembro por Rogério Chaves, coordenador editorial da Perseu Abramo, no qual ele autoriza Denise a negociar com outras editoras e afirma que a nova obra é diferente da anterior. "Assinei esse documento de boa-fé, a pedido da Denise. Ela disse que precisava do documento para nos ajudar a buscar uma coeditora. Nunca imaginei que fosse acabar assim", diz Chaves.

A Fundação Perseu Abramo se prepara para lançar nova edição do livro de 2003, com 2 mil exemplares. "Denise encaminhou um exemplar, que está sendo comparado com a versão original. Se acharmos necessário, convidaremos ela para uma conversa", declarou Luiz Bueno de Aguiar, advogado da Perseu Abramo e do PT. "Se constatarmos que são obras diferentes, será cada um no seu quadrado", completou. O departamento jurídico da entidade afirmou que tem o direito, inclusive, sobre o roteiro do filme.

O Estado apurou que a fundação costurava acordo de coedição com a editora Vozes quando recebeu, semana passada, pedido de Denise para revogação do contrato. A Perseu Abramo é presidida por Nilmário Miranda, petista histórico e com bom trânsito no Palácio do Planalto. Diante da pressão de petistas, Denise teria recuado e pedido apenas à fundação que não usasse a tarja preta com a inscrição "O livro que deu origem ao filme". A autora nega que tenha feito o pedido.

Apesar da polêmica, ambas editoras querem aproveitar o embalo do filme e o possível apelo nas classes de baixa renda. Além do formato brochura, com tiragem de 50 mil exemplares, a Objetiva pretende lançar versão de bolso, que deverá custar metade dos R$ 24,90 da padrão. Já o livro da Perseu, que tem 528 páginas, continuará com o mesmo preço: R$ 40 nas livrarias.

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