Bióloga escreveu poema religioso em trabalho de mestrado

'Não vejo dilemas morais entre as pesquisas que faço e minha religião', diz a cientista, que trabalha com células-tronco

BRUNO DEIRO, O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2012 | 03h07

Pesquisadora do Departamento de Genética e Biologia Evolutiva do IB-USP, Thaiany Quevedo Melo, de 22 anos, faz experimentos com células-tronco embrionárias em ratos e não se sente desconfortável ao expor sua fé católica nos trabalhos acadêmicos que produz. Nos agradecimentos da dissertação de mestrado defendida há pouco mais de um mês, ela anexou um poema religioso, de sua autoria.

"Acho que aquele é um espaço livre. Se a pessoa quiser fazer uma citação para o seu cachorro, ela tem o direito", afirma Thaiany. "Não vejo dilemas morais entre as pesquisas que faço e a minha religião, pois todo projeto nesta área tem de passar por um comitê de ética."

Ela admite, porém, que no Instituto de Biociências os conflitos entre ciência e religião são frequentes. "Lembro que, na primeira aula que tive sobre evolução, uma menina que era evangélica levou a Bíblia para a sala. O professor, que era ateu, teve de lembrá-la de que ninguém estava ali para discutir fé, mas os fatos da ciência."

Considerando a rejeição do Vaticano às pesquisas com células-tronco embrionárias, Thaiany diz que a maior pressão sobre seu trabalho está fora da faculdade. "Vou à igreja com frequência, mas evito discutir isso com as pessoas de lá. Minha avó recebe amigas para fazer novena lá em casa e algumas dizem que estou indo contra Deus, que fazer o que faço é o mesmo que conduzir um aborto."

Na Faculdade de Veterinária, a questão religiosa enfrenta menos resistência. "Como não temos cadeiras sobre evolução, não existe tanto questionamento", conta Silvia Amélia Ferreira Leite, de 28 anos, que no fim do ano terminará o mestrado em anatomia de animais domésticos e silvestres. "Nunca ouvi falar que citações religiosas poderiam interferir no trabalho acadêmico científico. Na minha dissertação, por exemplo, pretendo agradecer primeiro a Deus."

Vanessa Uemura da Fonseca, outra pós-graduanda da Veterinária, diz que a maioria dos trabalhos dos colegas tem referências a Deus e à Bíblia. "Vemos muitas citações religiosas nos trabalhos de outros estudantes, e até mesmo de professores. É bastante comum", afirma.

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