Clayton de Souza/AE–20/9/2007
Clayton de Souza/AE–20/9/2007

Biópsia do endométrio pode ajudar tratamento de reprodução assistida

Técnica ainda é considerada controversa e médicos afirmam que mais estudos devem ser feitos para entender por que o procedimento aumenta as chances de sucesso da gravidez; uma das hipóteses é que cicatriz provocada facilitaria a adesão do embrião

Fernanda Bassette, O Estado de S.Paulo

13 Junho 2011 | 00h00

Uma pesquisa brasileira sugere que realizar uma biópsia de endométrio em mulheres que estão em tratamento de reprodução assistida aumenta as chances de sucesso da gravidez. A técnica, descrita pela primeira vez em 2003, ainda é considerada controversa.

A biópsia de endométrio é um procedimento invasivo, que dura cerca de 10 minutos, e geralmente é indicado para diagnóstico de câncer ou de infertilidade. O uso da técnica para tentar aumentar taxas de gravidez foi descrito em 2003 por médicos israelenses e, desde então, ainda não se sabe ao certo qual é o mecanismo que estaria envolvido.

O estudo brasileiro é resultado de uma tese de doutorado defendida na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e foi conduzido pelo médico Fernando Prado Ferreira no Centro de Reprodução Humana do Hospital Santa Joana - maternidade particular da cidade.  

O objetivo inicial do estudo era descobrir se, ao realizar a biópsia de endométrio antes do ciclo de fertilização, o organismo liberaria substâncias que poderiam ou não facilitar no processo de implante do embrião.

Para isso, Ferreira analisou 98 mulheres, com idade média de 33 anos, que tentavam o primeiro ciclo de fertilização: 49 delas fizeram a biópsia e 49 não.

Segundo Ferreira, não foi possível correlacionar a taxa de gravidez com as substâncias analisadas, mas, por acaso, ele percebeu que a taxa de sucesso de gravidez foi cerca de 40% maior nas mulheres que fizeram a biópsia antes do ciclo.

Os resultados da pesquisa serão apresentados em julho no 27º Congresso Anual da Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia.

Hipóteses. Ferreira, entretanto, ainda não sabe explicar o motivo exato que levou ao sucesso das gestações. Uma das hipóteses sugere que a retirada de um pequeno pedacinho do endométrio provocaria uma reação inflamatória e liberaria substâncias que poderiam ou não interferir no processo de implantação.

Outra possibilidade avaliada pelo médico é a de que a cicatriz provocada pela lesão no endométrio também facilitaria a adesão do embrião no local.

Para Carlos Alberto Petta, especialista em reprodução assistida e professor da Unicamp, os resultados fazem sentido na teoria, mas o problema é que não se sabe qual o mecanismo envolvido para explicá-los, por isso não poderiam ser usados na prática.

"A biópsia é um procedimento invasivo. Mulheres em tratamento de fertilidade são mais suscetíveis e se apegam de maneira muito forte a tudo o que aparece. E não é tão simples assim. Imagine se toda mulher resolver fazer biópsia de endométrio?"

Riscos. De acordo com Ferreira, a biópsia não deve ser usada em todas as mulheres porque há um risco de infecção durante o procedimento, que não é totalmente indolor - as mulheres tomam analgésicos meia hora antes. "Tem de ser tudo muito bem esterilizado para não enviarmos bactérias para dentro", diz.

Artur Dzik, presidente da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana, diz que a implantação do embrião é "a caixa preta" da reprodução assistida. "Um dos maiores mistérios é entender por que, na melhor das hipóteses, a taxa de sucesso gira em torno de 50%", diz.

Dzik ressalta que não é recomendado manipular o endométrio da mulher antes do ciclo de fertilização porque isso poderia causar pequenos traumas e dificultar o processo como um todo. "O nosso medo é isso atrapalhar mais do que ajudar", afirma.

Para Dzik, os resultados obtidos são bons, mas ainda preliminares. "O número de pacientes avaliadas ainda é muito pequeno para que os resultados se tornem uma verdade científica. Ainda deve demorar um tempo para que isso vire rotina."

Eduardo Pandolfi Passos, diretor-científico da Associação Latino-Americana de Medicina Reprodutiva, também é cauteloso ao analisar os resultados. Ele diz que isso pode provocar uma busca excessiva e injustificada pela biópsia - que pode não trazer benefício nenhum à mulher.

"É discutível. O questionamento principal é a manipulação do endométrio e o quanto isso interfere no ciclo. Você pode criar uma expectativa falsa na paciente, porque nem sempre a resposta será positiva", diz.

Apesar dos resultados positivos das gestações após a realização da biópsia, Ferreira diz que continua estudando o procedimento para ver se os resultados, de fato, se confirmam. "A ideia é saber se, diante disso, a biópsia vire rotina", afirma.

PARA LEMBRAR

Resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM) sobre fertilização assistida emitida em janeiro alterou as regras sobre limites para implante de embriões em pacientes que se submetem à técnica no País. O teto anterior de quatro embriões foi mantido apenas para mulheres de 40 anos ou mais. Para as pacientes com menos de 35 anos, o máximo tolerado passou a ser de dois embriões. Em pacientes com idade entre 36 e 39 anos, o limite atual é de três. Especialistas afirmam que a mudança no número de embriões não altera índices de eficácia da técnica.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.