Bispo foi elogiado por proteger pedófilo

Em 2001, cardeal louvou decisão de poupar padre; Vaticano diz que procedimento mudou

Afp, Ap e Reuters, BOGOTÁ, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2010 | 00h00

Em meio às críticas aos procedimentos da Igreja Católica em lidar com casos de pedofilia envolvendo o clero, um site francês divulgou na semana passada uma carta de 2001 na qual um cardeal colombiano elogia um bispo por não ter denunciado às autoridades civis um padre de sua diocese condenado a 18 anos de prisão por abuso de menores. Ontem, o Vaticano usou o caso como um exemplo de que esse procedimento não ocorre mais.

Os elogios foram feitos pelo cardeal Darío Castrillón Hoyos, de 81 anos. A missiva, que pode ser lida no site golias.fr, foi enviada quando Hoyos liderava a Sagrada Congregação para o Clero, órgão encarregado de supervisionar assuntos relacionados aos sacerdotes e aos diáconos que não pertencem a uma ordem religiosa. Os nomes do bispo destinatário e do padre, condenado em 2000, não foram divulgados.

"Eu o felicito por não ter denunciado um sacerdote à administração civil. Fez bem e estou encantado por ter um companheiro no bispado que, aos olhos da História e de todos os bispos do mundo, preferiu a cadeia" a denunciar um padre, diz a carta.

Segundo o porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi, o caso "demonstra como era necessária a unificação de todos os casos de abusos sexuais sob a competência única e rigorosa da Congregação para a Doutrina da Fé" - organismo encarregado da disciplina interna dos sacerdotes, entre outras atribuições, e que foi chefiado pelo atual papa Bento XVI durante grande parte do pontificado de João Paulo II.

O cardeal colombiano, um dos primeiros latino-americanos designados por João Paulo II para trabalhar na Cúria Romana, não quis se pronunciar sobre o caso. Transferências. Pelo menos 30 padres acusados de abusos contra menores foram transferidos para outros países, entre eles o Brasil. A revelação é da agência de notícias Associated Press, que fez um levantamento em 21 nações. Alguns dos padres escaparam de investigação policial e muitos voltaram a trabalhar em contato com crianças.

"O padrão, se um padre cria problemas e está perto de gerar escândalo ou se a lei pode ser envolvida, é enviá-lo ao estrangeiro", conta Richard Sipe, um ex-monge beneditino crítico dessa prática. "Tudo para evitar um escândalo", completa.

Autoridades da Igreja afirmam que, em alguns casos, a mudança foi iniciativa do padre e a paróquia de destino não teria sabido das acusações. Em outros, havia dúvidas sobre as acusações ou o padre já tinha sido punido e se regenerado.

Um dos padres transferidos, Mario Pezzotti, teria estuprado por três vezes um adolescente de 14 anos na cidade de Holliston, nos Estados Unidos, em 1959, além de outras acusações. Em 1993, a vítima recebeu uma indenização de US$ 175 mil. Na época, Pezzotti vivia no Brasil, para onde havia sido transferido em 1970 e onde ficou até 2003. Durante sua estada no País, Pezzotti trabalhou com índios caiapó, entre eles crianças.

"Eu pedi para deixar Holliston e ir para o Brasil para mudar minha vida", escreveu o padre à vítima, Joe Callander, em 1993. "Ao chegar ao Brasil, confiante na misericórdia de Deus, admiti o problema. Com ajuda divina, eu o superei", concluiu.

Não há evidências de que Pezzotti, hoje com 75 anos e vivendo na Itália, tenha abusado de crianças no Brasil. A Justiça não registra queixas contra o sacerdote. O reverendo Robert Maloney, que trabalhou na disputa judicial entre Callander e Pezzotti, disse que o padre foi liberado para ficar no Brasil por mais uma década e trabalhar com crianças após uma avaliação psicológica.

Entre outros casos semelhantes estão o de um padre acusado de abusos em Los Angeles que foi mandado para as Filipinas; o de um padre canadense enviado à França, onde voltou a ser condenado por abuso; e de outro que foi movido várias vezes da Inglaterra para a Irlanda e vice-versa.

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