Bispo sul-africano Tutu comemora 80 anos em meio a polêmica

O arcebispo sul-africano Desmond Tutu, ícone da paz, comemorou seu 80o aniversário na sexta-feira na igreja onde pregou sermões contra o apartheid, poucos dias depois de dizer que o antigo movimento de libertação que hoje está no governo é, sob alguns aspectos, ainda pior.

PEROSHNI GOVENDER, REUTERS

07 de outubro de 2011 | 14h32

Tutu, que recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 1984 por manifestar-se contra o governo da minoria branca, ainda é uma das figuras mais famosas do mundo e é largamente visto como o norte moral da África do Sul.

Roqueiros, políticos e pessoas comuns da paróquia lotaram a catedral St. George, na Cidade do Cabo, para uma missa em homenagem ao homem que faz parte de um painel de estadistas globais.

Um dia antes, Tutu espalhou sua gargalhada por cerimônias separadas de aniversário e subiu ao palco com uma trupe de dança africana.

"Há apenas um astro do rock nesta sala, e é o arcebispo Desmond Tutu", disse o vocalista do U2, Bono, uma das celebridades que participaram dos três dias de comemorações.

Ao mesmo tempo em que os parabéns não param de chegar, as festividades foram maculadas por uma disputa com o partido CNA (Congresso Nacional Africano) por este não ter dado visto de entrada ao Dalai Lama, convidado por Tutu para os festejos.

Tutu regularmente critica o Congresso Nacional Africano, no poder desde o fim do apartheid, em 1994, mas sua explosão esta semana foi uma das mais duras e suscitou grande preocupação no partido governista.

Tutu disse que o fato de o CNA não ter autorizado a entrada no país do Dalai Lama, também Prêmio Nobel da Paz, equivale à submissão à China, maior parceira comercial da África do Sul, acusando o partido de comportar-se pior que os antigos governantes da minoria branca.

Tutu disse que a ação do governo do presidente Jacob Zuma, que estava com o pedido de visto do Dalai Lama semanas antes mas não tomou uma decisão a respeito, é uma "vergonha nacional".

Tutu afirmou ainda que Zuma não o representa e avisou que um dia o povo vai rezar pelo fim do CNA.

O bispo agradeceu o vice-presidente Kgalema Motlanthe por comparecer à comemoração na igreja, na sexta-feira.

Motlanthe esteve um Pequim uma semana atrás, onde brindou com líderes chineses, que já tacharam o Dalai Lama de separatista perigoso, e obteve promessas de investimentos de 2,5 bilhões de dólares na África do Sul.

"Obrigado por vir, a despeito de alguns dos percalços que já tivemos", disse Tutu.

Em uma saudação de aniversário que pode ser interpretada como manifestação de ira, o presidente Zuma disse que Desmond Tutu é admirado por "milhares" de pessoas, em um país de quase 50 milhões de habitantes.

Tutu, que um ano atrás se aposentou da maioria de seus deveres públicos, ainda é uma figura de destaque e é visto como uma voz da integridade.

Em sua última grande aparição pública, quando a África do Sul sediou a Copa do Mundo, em 2010, ele dançou sobre o palco com a banda Black Eyed Peas antes da partida inicial da Copa.

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