''Black Friday'' vira termômetro da crise

Estimativas para resultado das vendas no dia dos descontos nos EUA varia de queda de 1% para alta de 2%

Patrícia Campos Mello, O Estadao de S.Paulo

28 de novembro de 2009 | 00h00

Camilla O"Neal saiu de casa às 23h30 de quinta-feira para aproveitar as melhores ofertas da black friday (sexta-feira negra), o dia das maiores liquidações do ano nos Estados Unidos. A estudante universitária de 20 anos pegou carona com um amigo e à meia-noite já estava na fila, esperando a loja de departamentos Kmart abrir. Lá, comprou dois pares de sapatos, um pijama, um videogame e dois brinquedos.

Camilla voltou para casa às 2h30 da manhã, mas a maratona estava apenas começando. Às 7h, acordou e pegou o metrô até a Target, outra loja de departamentos. Comprou um assento massageador por US$ 35, desconto de 40%, e um forninho por US$ 16,99, desconto de 50%. "Só gastei US$ 300 e já fiz todas as compras de Natal", comemorava.

A poucos passos dali, o cozinheiro Hernan Sandoval também estava com cara de cansado, mas contente. Ele foi um dos poucos felizardos a comprar uma TV de plasma de 31 polegadas por US$ 300 - que se esgotaram em quatro minutos na Target. Ele aproveitou e levou outra TV de plasma, essa de 46 polegadas, por US$ 800.

Economistas vão examinar com lupa os resultados da black friday, em busca de indícios sobre a saúde da economia americana. No ano passado, a sexta-feira negra (que tem este nome porque normalmente é o dia em que os varejistas entram no "azul", ou negro nos EUA) foi catastrófica. Caíram o número de pessoas nas lojas, o gasto médio e o total de compras. Além disso, os lojistas se viram obrigados a fazer descontos de até 80% e muitos acabaram no prejuízo. Foi a pior black friday em 40 anos.

Neste ano, tudo indica que houve aumento de 3% no número de consumidores que correram para as lojas atrás das ofertas - cerca de 134 milhões de americanos foram às compras na sexta-feira. Agora, resta saber se a maioria será como Camilla, gastando pouco, ou como Hernan, que resolveu abrir a carteira.

RECUPERAÇÃO

Maior tráfego nas lojas não necessariamente leva a mais vendas. Muitos compradores apenas compraram os chamados doorbusters, que são as maiores promoções, em exposição perto da porta. Segundo o Conference Board, o americano pretende gastar em média US$ 390 nesta temporada de compras, uma queda de 7% em relação aos US$ 418 de 2008.

Por isso, as estimativas de faturamento variam. A Federação Nacional do Varejo prevê queda de 1% nas vendas de fim de ano, enquanto o Conselho de Shopping Centers estima alta entre 1% e 2%.

A taxa de poupança dos EUA aumentou neste ano, o que é visto como saudável passo rumo ao equilíbrio, depois de anos de consumidores superendividados. Com o desemprego acima de 10% e o mercado imobiliário só agora se estabilizando, muita gente está receosa de gastar no cartão de crédito.

Se os consumidores relutarem muito em abrir suas carteiras neste momento, podem acabar interrompendo a recuperação que está em curso. "Na medida em que a economia continua a se recuperar da pior crise econômica que muitos varejistas já viram na vida, os americanos vão se focar em presentes mais práticos e gastar pouco neste Natal", disse a economista-chefe da Federação Nacional de Varejo, Rosalind Wells.

Apesar do maior número de pessoas, a black friday deste ano foi bem mais calma. No ano passado, um funcionário morreu pisoteado em um Walmart no Estado de Nova York, quando uma turba de 2 mil compradores se espremeu para entrar na loja às 5h e conseguir as melhores ofertas.

Neste ano, no Walmart de Valley Stream, onde o segurança Jdimytai Damour morreu no ano passado, havia uma legião de seguranças e policiais na porta da loja. Lá dentro, funcionários distribuíam água e salgadinhos para os consumidores extenuados. O Walmart incorporou medidas de "administração de multidões" e ficou aberto 24h, assim os consumidores já estavam dentro das lojas quando as promoções começaram, eliminando o risco de tumultos na porta.

Até a AAA, a associação dos automóveis americanos, lançou um guia chamado Dicas para evitar ser pisoteado por consumidores descontrolados. Uma delas é: se você cair, não fique deitado de costas ou de bruços, fique enrolado como uma bola e tente se arrastar na direção da multidão. "Mas o melhor mesmo é fazer compras acompanhado, pois se você for derrubado pela multidão alguém estará lá para ajudá-lo", diz o guia.

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