Boas e más notícias

Entre outros conselhos oferecidos na quinta-feira a sua criatura, Lula afirmou que o governo precisa urgentemente dar uma “boa notícia” para os brasileiros. Se depender disso, Dilma Rousseff está definitivamente perdida.

O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2015 | 00h29

Há duas categorias de boa notícia que um governo pode dar: o anúncio de algum resultado positivo em sua ação, com benefícios aos cidadãos, ou a promessa de benefícios futuros. Todo mundo sabe que a presidente Dilma Rousseff não tem nenhum resultado positivo da ação de seu governo que possa ser apresentado como novidade, porque perdeu o poder de governar e se dedica exclusivamente à tentativa desesperada de sobreviver no cargo. Logo, o que Lula, o encantador de multidões, está propondo é que Dilma faça como ele: suba ao palanque, do qual ele próprio nunca desce, e diga o que ele acha que o povo quer ouvir.

O “conselho” de Lula poderia parecer apenas cínico, se não traduzisse fielmente a essência do pensamento deste que é, disparado, o mais hábil político brasileiro – mais, muito mais que Paulo Salim Maluf. Um pensamento que, por conta do carisma do ex-líder metalúrgico, predomina no PT e está por detrás da conversão de um partido que nasceu com o propósito de redimir a política à condição de militante do fisiologismo que responde pelos apelidos de mensalão e petrolão.

É claro que Lula não inventou a corrupção, mas está demonstrado acima de qualquer dúvida que ele não teve o menor escrúpulo de utilizar quem dela se valia para viabilizar seu projeto de poder.

Até mesmo os programas sociais dos governos petistas – que convenientemente propagandeados ancoraram a explosão do prestígio de Lula no plano internacional e as vitórias nos três pleitos presidenciais a partir de 2006 – acabaram por contribuir para a crise econômica que o País hoje enfrenta, pois estimularam a gastança descontrolada que a “nova matriz econômica” adotou a partir da metade do segundo mandato de Lula e aprofundou-se nos primeiros quatro anos de Dilma. As desastradas tentativas de seu governo de corrigir os próprios erros, embora nunca reconhecidos, apenas confirmam que ela continua perdida.

A inflação fora de controle, o crescimento do desemprego provocado pela recessão e a drástica redução dos recursos para investimento em infraestrutura mostram que os programas sociais dos governos petistas tinham tudo a oferecer a uma população carente, menos programas sustentáveis garantidos por uma política econômica responsável.

Em vez de acesso a bens sociais – como educação de qualidade, capacitação técnica para o trabalho e serviços de saúde bons –, as camadas menos favorecidas da população foram brindadas por uma política populista que privilegiou o acesso a bens de consumo.

Continuaram vulneráveis. E, mais que isso, passaram a ter mais a perder, porque o governo criou a ilusão de que havia promovido milhões de brasileiros pobres à classe média. Esgotado o crédito fácil, confrontado com a inflação corrosiva e diante da possibilidade real de perder o emprego, o brasileiro que se vira como novo membro da classe média teve de se preparar para o choque da volta à pobreza – e desde sempre sabendo que isso não ocorria por culpa de acontecimentos externos ou do clima ruim, mas por causa da incompetência administrativa e da decadência moral dos governos do lulopetismo.

A verdade é que, inebriado pelo poder, o lulopetismo mergulhou num populismo irresponsável que até agora o que fez de melhor foi explorar eleitoralmente, com a promessa de “boas notícias”, as muitas carências de uma grande parcela da população ainda marginalizada de uma participação ativa na vida econômica.

O populismo se exauriu em sua irresponsabilidade e os brasileiros não querem mais saber das “boas notícias” de Lula. Apenas cobram a entrega de tudo o que foi prometido. Este é o único e verdadeiro “golpe” que está no ar e pode se transformar em uma muito má notícia para Dilma.

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