Bolívia ameaça estatizar exploração de gás

Morales anuncia 'ultimato' às empresas petroleiras para que invistam no setor.

Marcia Carmo, BBC

19 de maio de 2008 | 04h45

O presidente da Bolívia, Evo Morales, afirmou que o Ministério de Hidrocarbonetos dará um "ultimato", em forma de um decreto, às empresas petroleiras para que realizem investimentos nos campos de exploração de petróleo e de gás, ou estas atividades voltarão às mãos da estatal YPFB (Yacimentos Petrolíferos Fiscais Bolivianos).A informação foi publicada no domingo na Agência Boliviana de Informação (ABI), do governo. "Se num prazo determinado (as petroleiras) não investirem, vamos recuperar essas áreas para que a Yacimentos realize investimentos, mesmo que seja através de créditos. Não vamos esperar a boa vontade das empresas", disse Morales, num discurso na localidade de Punata, a 58 quilômetros da cidade de Cochabamba. O presidente afirmou ainda que, depois da nacionalização das petroleiras, no dia 1º de maio de 2006, as empresas se comprometeram a investir para ampliar a produção no país. Por isso, disse o líder boliviano, estas empresas devem investir e "cumprir com os acordos assinados". O presidente não citou nome de empresas e acusou a Câmara de Hidrocarbonetos da Bolívia, que reúne as petroleiras, de "sabotar os investimentos". IntervençãoO presidente da YPFB, Santos Ramírez, afirmou que as petroleiras congelaram seus investimentos a partir do fim da década de noventa e que, mais tarde, mesmo com o fim do congelamento, os investimentos foram realizados "de forma insignificante". Ramírez disse que em 30 dias será feita uma avaliação dos contratos em vigor. Ele destacou ainda que a expectativa é de que neste ano sejam investidos US$ 900 milhões (R$1,47 bi), entre as empresas privadas e a YPFB, no setor de hidrocarbonetos."Mas se este investimento não for feito, como elas se comprometeram, o Estado estará no direito de proteger o fornecimento de gás e adotará as medidas correspondentes", afirmou. "Se constatarmos que os investimentos não foram realizados, vamos ter que castigar ou participar de maneira direta (neste setor). Por isso, a YPFB tem que estar em condições de intervir nos campos (de petróleo e gás)", disse. NacionalizaçãoAs declarações de Morales e de Ramírez foram feitas 17 dias depois do anúncio da nacionalização de três petroleiras - Chaco, que tem participação da Panamerican Energy, que pertence ao grupo British Petroleum (BP), Transredes, a transportadora de hidrocarbonetos da britânica Ashmore e da anglo-holandesa Shell, e a Companhia Logística de Hidrocarbonetos, de investimentos da Alemanha e do Peru. Estas últimas medidas ocorreram dois anos após Morales ter surpreendido os investidores, em 1º de maio de 2006, com o anúncio da nacionalização, das petroleiras, entre elas a Petrobras, com as quais renegociou os contratos que estavam em vigor. Atualmente, a empresa explora os campos de San Alberto e San Antonio, mas segundo informações da assessoria de imprensa, os investimentos "vêm caindo" nos últimos anos. As reservas de hidrocarbonetos estão nacionalizadas e a comercialização estatizada, a cargo da YPFB, que passou a ser a principal administradora do setor. Durante o discurso de domingo, Morales voltou a afirmar que está "cumprindo com a palavra". "Necessitamos de sócios e não de patrões, sócios e não donos dos nossos recursos naturais", afirmou o presidente. De acordo com a Câmara de Hidrocarbonetos, com sede em Santa Cruz de la Sierra, os investimentos nas áreas de gás e petróleo estão em queda e a produção de gás está "no limite" para atender a demanda do Brasil e a interna.E essa demanda só está sendo atendida porque a quantidade de gás prometida à Argentina não está sendo enviada ao país.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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