Bons presentes de grego

Os vinhos trazidos nas malas costumam dar bom assunto. Dessa vez foi meu amigo grego Táki Cordás que teve a gentileza de transportar o que chamou "degustação balcânica", incluindo Grécia (por motivos óbvios), Macedônia, Romênia e Bulgária.

Luiz Horta, O Estado de S.Paulo

06 Setembro 2012 | 03h13

Vinhos gregos já são conhecidos, e alguns têm grande qualidade. A Bulgária, antes do período soviético, foi famosa por seus Cabernets e é região vinícola em pleno renascimento. A Macedônia também. O que eu não sabia era da existência de vinhos romenos.

A maior descoberta da prova foi o Vranäc, da casta do mesmo nome, que quer dizer em macedônio (leio no Atlas Mundial do Vinho) garanhão negro. Talvez uma referência a sua intensidade de cor e sabor, com taninos bem marcados. Mas, ao contrário de outras uvas difíceis de domesticar, como a Tannat uruguaia e a Baga da Bairrada em Portugal, a Vranäc é modesta em selvageria.

Foi o melhor, saiu da esfera de mera coisa peculiar e entrou para a lista de vinhos de verdade.

O mesmo não dá para dizer do rosé búlgaro, que parecia suco de groselha, enjoativo e esquecível. O país tem um leque grande de uvas nativas e, com os investimentos recentes, vai mostrar resultados mais animadores.

E o Merlot romeno, que até pela ausência de safra já deixa uma suspeição no ar? Não era intragável, mas não tinha nem a tipicidade nem a complexidade da casta. Provavelmente era uma mistura de safras e uvas, dentro de uma legislação confusa. Pena.

Jancis Robinson fala com entusiasmo do potencial geográfico da Romênia e conta de um vinho, o Perle de la Moldavi, que encantou as cortes europeias, como o Tokaj, e desapareceu. A Hungria recuperou o prestígio e a qualidade de seus vinhos botritizados em pouco tempo. Esperemos dos romenos semelhante recuperação.

A Grécia corre em separado. É um dos grandes países vinícolas e não tem nada de extravagante beber e mencionar (e elogiar) seus vinhos. Com grande variedade de castas autóctones, inúmeros microclimas e grandes produtores, deveria, faz tempo, merecer algumas colunas. Mea culpa. Os vinhos balcânicos de Táki Cordás foram um puxão de orelhas para que eu me ocupasse de sua querida nação helênica. Salivei pensando nos brancos sequíssimos de Santorini. Em breve começo a degustá-los.

%%% Kerastis 2008 (Grécia)

Feito com a uva Agiorgitiko (São Jorge) da denominação Nemea, no Peloponeso, vem de solo pobre e de altitude. Nariz com alguma rusticidade atraente. Acidez moderada, mas longo na boca, com taninos muito presentes. Bom vinho para comida (enfrentou bem a gordura de pato durante o jantar após a degustação)

%% La Revedere Merlot (Romênia)

Curiosamente sem indicação de safra no rótulo, bem ligeiro, quase diluído, não chega a ser imbebível, mas falta consistência. Valeu por acrescentar mais um país ao currículo do bebido na vida. O espantoso foi o preço, cerca de US$ 50, comprado na Suécia, onde o monopólio estatal de comércio de álcool enfia imposto sem dó

% Château Karnobat 2011 (Bulgária)

Tinha forte aroma de fruta, foi o jeito delicado de dizer, até que o álcool soltou as línguas e admitimos em coro: parece suco de groselha. Não era ruim, bem geladinho, refrescava, pois não repetia na boca a doçura do nariz. Mas não tinha nada mais a apresentar, banal e simplão

Viagem engarrafada

Parada nº 53/100

Balcãs

Diversas uvas

Internacionais, como Merlot, e algumas autóctones como Vranäc

e Agiorgitiko

%%% Vranäc 2009 (Macedônia)

Convenceu. Nariz muito elegante, equilibrado e sério. Na boca tem classe, boa acidez, taninos finos e bem trabalhados. Foi o auge da degustação e boa apresentação da casta Vranäc. Pode ganhar com mais tempo na garrafa

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