Bons rocks do baú de Raul: é som na caixa

Gravadora relança box com os seis primeiros álbuns do roqueiro, incluindo os clássicos Krig-Ha, Bandolo! e Gita, dos anos 1970

Lauro Lisboa Garcia, O Estadao de S.Paulo

26 Janeiro 2010 | 00h00

Para os fanáticos por Raul Seixas (1945-1989), que não são poucos, é chover no molhado, mas para os não iniciados, a caixa 10.000 Anos à Frente (Universal) é o que há de melhor para ser explorado no baú do roqueiro. O box contém seus seis primeiros álbuns, gravados na Philips - os clássicos Krig-ha, Bandolo! (1973), Gita (1974), Novo Aeon (1975) e Há 10 Mil Anos Atrás (1976) e duas antologias com hits do rock dos anos 1950 e 60.

O primeiro teve três versões. Inicialmente, o disco se chamava Os 24 Maiores Sucessos da Era do Rock e foi atribuído a uma banda inventada, Rock Generation. Tão fake quanto a banda são os aplausos e assobios que dão a impressão de se tratar de um disco ao vivo. Essa é a parte chata. Já com o de Raul, o LP foi relançado em 1975, intitulado 20 Anos de Rock e relançado em 1985 como 30 Anos de Rock. A capa da última versão é que foi para o CD. Nele, Raul repassa os primórdios do rock americano e brasileiro em medleys. O outro do gênero, Raul Rock Seixas, de 1977, é uma sequência mais consistente.

Na última faixa deste, Raul funde Blue Moon of Kentucky com Asa Branca (Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira), numa clara afirmação de propósitos anteriores. Apesar de ser cultuado como o rei do rock brasileiro, ele nunca foi só dessa praia e desde o início reconheceu a influência do baião. No ótimo documentário O Homem Que Engarrafava Nuvens, de Lírio Ferreira, Raul aparece cantando Asa Branca e é bem lembrado como o primeiro a ter sacado a proximidade do rock com baião.

Como bom baiano, ele foi pioneiro fazendo várias dessas fusões, não apenas com o baião, mas com outros ritmos brasileiros, como em Let me Sing, Let me Sing (que concorreu ao Festival Internacional de 1972, mas não está nesses álbuns da caixa), As Aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thor, Os Números. Mosca na Sopa, um de seus maiores hits tem uma batida que é meio coco, meio batuque de candomblé. Rockixe é uma interessante mistura de rock, soul e baião. É Fim de Mês é uma embolada-rock. Caminhos também vai nessa linha.

Em Gita, Raul canta um bolerão rasgado (Sessão das 10), canção ao estilo Broadway com ares jazzísticos (Moleque Maravilhoso) e, entre temas espiritualistas, filosóficos, libertários e ecológicos, na maior parte em parceria com o letrista Paulo Coelho, também reforça o bom senso de humor. Nesse aspecto, o melhor vem no álbum seguinte, Novo Aeon (que abre com Tente Outra Vez) na impagável brega Tu És o MDC da Minha Vida. O disco de 1976 se inicia com a canção mais dramáticas da dupla Raul-Coelho, Canto para Minha Morte, cujo ritmo não poderia ser mais adequado: um tango.

Nem é preciso dizer que Gita parece uma coletânea de clássicos, com Medo da Chuva, Trem das Sete, Sociedade Alternativa (que virou uma espécie de hino da tolerância), algumas já citadas acima e outras mais. Krig-Ha, Bandolo! não fica atrás com Ouro de Tolo, Al Capone, Metamorfose Ambulante, Mosca na Sopa, etc. Os CDs contêm as mesmas faixas-bônus de quando foram lançados em outro box set, Maluco Beleza, de 2002. As únicas novidades são o formato da caixa e os textos do jornalista Silvio Essinger.

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