Bosco cria SP mítica na televisão

Dramaturgo leva para a telinha a cidade que ficou idealizada em sua memória e a megatorre que não saiu do papel

Rodrigo Brancatelli, O Estadao de S.Paulo

28 de novembro de 2009 | 00h00

São Paulo tem alguns capítulos de sua história que são tão fantásticos, tão espantosos e tão... estranhos, que definitivamente mereceriam estar não em um livro ou jornal, mas em uma novela. De preferência, daquelas bem fantasiosas. Na cidade onde há mais ratos do que pessoas (sério, quase 15 vezes mais), onde aconteceu o único bombardeio aéreo da história do País (o ataque durou 22 dias, em julho de 1924) e onde um de seus botecos mais tradicionais proíbe casais de se beijar (no Bar Léo, se você tentar, vai ganhar uma bela de uma bronca dos garçons), chega até a ser difícil se surpreender com algo. Para o dramaturgo e roteirista Bosco Brasil, no entanto, uma notícia que saiu no Estado em 13 de maio de 1999 superou as expectativas até do paulistano mais escolado em absurdos.

Em resumo, era o seguinte: "o guru indiano Maharishi Mahesh Yogi vai investir US$ 1,65 bilhão para construir um edifício de 494 metros de altura e 103 andares no centro de São Paulo". O megaempreendimento, batizado de Maharishi Tower of Peace, teria 1,3 milhão de m² ocupados por conjuntos comerciais, centro de convenções, shopping center, escritórios, hotéis, centro residencial, universidades, restaurantes e teatro. O projeto previa um sistema de transportes com ônibus, trem e metrô, além de heliporto e monotrilho (trem responsável pela comunicação entre os vários estacionamentos e a torre principal). "De acordo com o cronograma, a pedra fundamental será lançada no início de 2000", sentenciava a reportagem.

O tal "prédio mais alto do mundo" seria erguido no Pátio do Pari, no Brás, centro, ao lado da Avenida do Estado. Mas nunca saiu do papel. Também não saiu da cabeça de Bosco Brasil, que na época desbravava a ainda inóspita Praça Roosevelt com sua companhia teatral, depois de ter ganho os Prêmios Shell e Molière de melhor autor pelo texto de Budro, um retrato da juventude de classe média na São Paulo do fim do milênio. O tempo passou, Bosco montou outras peças, ganhou outros prêmios e ajudou a escrever oito novelas no SBT, na Record e na Globo. Prestes a estrear sua primeira novela totalmente autoral, a próxima a ocupar o horário das 19 horas na Globo, nada melhor do que recorrer aos fatos quase ficcionais do Maharishi Tower of Peace para retratar as transformações mais absurdas da São Paulo desse milênio.

"Sempre tive um fascínio pelos prédios do centro, tipo o Copan, que misturam muita gente", conta Bosco, que há cinco anos mora no Rio. "Quando pintou esse projeto megalomaníaco do Maharishi, sabia que ia superar em fantasia qualquer ficção. Pô, eles iam acabar com o Pari para fazer um edifício! E isso ficou no meu bloquinho de ideias, até que rolou essa chance de escrever uma novela. O mais engraçado é que, quando falava para o pessoal da Globo de fazer uma novela que ia ter um prédio gigantesco no centro de São Paulo com centenas de andares, me diziam que era exagerado. Mas era verdade, teve gente que propôs isso! Era uma coisa completamente doida, biruta. Tinha de virar novela."

Intitulada Tempos Modernos, a novela de Bosco Brasil estreia dia 11 de janeiro e vai mostrar um prédio inteligente no centro da capital, chamado "Titan 1º", cheio de câmeras e sensores de vigilância operados por um computador da estirpe de Hal, de 2001: Uma Odisseia no Espaço. Logo no começo da história, um construtor tenta erguer um edifício ainda maior e mais megalomaníaco, o Titan 2º. "Esse cara quer construir um prédio no espaço onde fica a Galeria do Rock, e os lojistas se revoltam", conta ele, sempre rindo muito da própria trama. "É uma brincadeira com Big Brother, mas também é sobre o momento complicado que vivemos, com tantos condomínios fechados, essa coisa paulistana de trocar a liberdade por uma sensação de segurança. É uma discussão antiquíssima, mas acho que hoje isso chegou num nível paranoico."

A novela já está com dezenas de capítulos gravados, tanto no centro quanto na cidade cenográfica construída no Projac - sem lixo, sem usuários de crack, sem cheiro de xixi, mas ainda assim muitíssimo parecida com a original. "Já recriaram o Rio Ganges, por que não recriar o centro mais limpinho? É a novela da sete, né? Não tem saída. O centro melhorou bastante, mas tem de rolar um Photoshop. Novela tem de ser bonita, não é sobre as mazelas, mas para se divertir."

RIQUEZA HUMANA

Nascido em 1960 em Sorocaba (como seu pai era juiz e ia de comarca em comarca até chegar à capital, seus seis filhos nasceram em seis cidades diferentes), Bosco começou a tomar gosto pelas letras ainda em casa, por força de duas situações um tanto inusitadas - a falta de amigos na cidade e o calor. "Papai tinha uma biblioteca enorme, com romances, poesias, livros de Direito. Ficava na parte de baixo da casa, e era a parte mais fresca da residência", lembra. "Então, eu ficava sempre lá, era gostoso, fresquinho. Antes mesmo de já saber ler, achava aqueles livros maravilhosos. O Código Civil era o meu favorito, era tão bonitinho, tão organizadinho com aquelas colunas. Por isso, o aspecto visual sempre me chamou a atenção. Até hoje quando escrevo eu consigo abstrair o que está escrito e consigo visualizar a cena."

O interesse pelo centro de São Paulo também veio desde pequeno, quando ia para as aulas no Colégio São Bento, e depois, nos tempos de office-boy. Não é de se estranhar que todas essas linhas - a dramaturgia, o centro, o prédio megalomaníaco, a cidade idealizada sem sujeira e sem drogados - se juntem agora em Tempos Modernos. "Há muito tempo eu queria contar uma história no centro de São Paulo, porque cresci ali, batendo perna. Como diz o Evangelho, onde está o seu tesouro, estará também o seu coração", diz. "É um lugar marcante para mim, esse lugar meio misturado, onde mora e trabalha gente, esse lugar esquisito, com toda aquela riqueza humana. Vi também a degradação da região a partir dos anos 70, claro, mas, para mim, a São Paulo que ficou na cabeça é meio mítica, idealizada, onde a realidade e a ficção se misturam. É, literalmente, a minha cidade dos sonhos."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.