Bóson de Higgs é maior avanço de 2012

Revista 'Science' elege descoberta de partícula como feito científico mais importante do ano; evolução da genômica também é lembrada

HERTON ESCOBAR, O Estado de S.Paulo

21 Dezembro 2012 | 02h13

A revista americana Science anunciou ontem a sua tradicional lista de dez maiores avanços da ciência no ano. O grande campeão de 2012 não poderia ser outro: a descoberta do bóson de Higgs - a chamada "partícula de Deus" -, nas dependências do Grande Colisor de Hádrons (LHC), o maior e mais caro projeto científico de todos os tempos.

A descoberta foi anunciada pelo Centro Europeu de Pesquisas Nucleares (Cern), no dia 4 de julho, em Genebra, num evento que, aconteça o que acontecer, já entrou para a história da ciência. Descobrir - ou demonstrar a não existência - do bóson de Higgs era o maior desafio por trás do LHC, um gigantesco acelerador de partículas subterrâneo com 27 quilômetros de comprimento, que custou US$ 5,5 bilhões para ser construído.

O bóson era a partícula que faltava para completar o Modelo Padrão, o quebra-cabeça de equações elementares da física que descreve a composição e o funcionamento de toda a matéria visível do universo. Segundo a teoria, é a partícula que dá massa a todas as outras partículas, como prótons e elétrons.

"Fecha-se um episódio importantíssimo na história do conhecimento humano. Hoje temos um modelo que descreve com enorme precisão todas as interações relevantes para o mundo subatômico", diz o físico brasileiro Sergio Novaes, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), um dos seis mil cientistas ao redor do mundo que colaboraram nos experimentos.

A existência do bóson já era prevista teoricamente há mais de 40 anos, mas faltavam resultados experimentais para provar que ela existe de verdade. Foi o que fez o LHC, acelerando e colidindo prótons em velocidades próximas à da luz.

Genômica. Outros nove avanços receberam menção honrosa da revista. Entre eles, o aprimoramento das técnicas de sequenciamento de DNA fóssil, liderado pelo Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva em Leipzig, na Alemanha, que conseguiu pela primeira vez sequenciar o genoma de um hominídeo com a mesma precisão do genoma de um ser humano moderno.

Também foi lembrada a publicação da Enciclopédia de Elementos de DNA (Encode, em inglês), um projeto de US$ 288 milhões que desbancou, definitivamente, o conceito de "DNA lixo", mostrando que a funcionalidade do genoma humano não se resume aos 2% de regiões que codificam proteínas (os genes propriamente ditos). Os resultados, publicados em setembro, revelaram que 80% do genoma humano tem alguma função bioquímica operacional, controlando ou influenciando o funcionamento dos genes e outras atividades essenciais das células.

Outro destaque foi o desenvolvimento de uma biotecnologia molecular chamada Talent, que permite desligar genes de forma muito mais específica do que pelas metodologias anteriores.

Já a biologia celular foi destaque pela comprovação de que células-tronco embrionárias podem ser transformadas em óvulos viáveis para reprodução. O estudo, da Universidade de Kyoto, foi feito apenas em camundongos, mas abre uma série de perspectivas para o tratamento da infertilidade no futuro.

Na área da exploração espacial, não poderia faltar a missão Curiosity, da Nasa, que colocou mais um jipe-robô para procurar indícios de vida em Marte. A missão está em curso há quase cinco meses, após um pouso espetacular no dia 5 de agosto.

Os outros destaques selecionados pela Science foram pesquisas com neutrinos na China, o uso de lasers de raio X para determinar a estrutura de proteínas, a descoberta de uma outra partícula chamada fêrmion Majorana, e avanços na tecnologia de interface cérebro-máquina.

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