Fernando Faro/AE
Fernando Faro/AE

Brado a capela

Quis o acaso que houvesse no Brasil um torneio internacional para ampliar as manifestações da rua e o Hino Nacional da torcida contra o México

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

22 de junho de 2013 | 16h45

A bela vitória de 2 a 0 do Brasil sobre o México na Copa das Confederações pode vir a ser, no futuro, lembrada como um acontecimento em que o futebol foi além de si mesmo.

Do lado de fora do Castelão, em Fortaleza, havia uma grande manifestação popular que, como todas as manifestações recentes, atirava contra várias frentes – transporte caro e ruim, corrupção, saúde precária, obras faraônicas para a Copa financiadas com dinheiro público. Dentro, um público, já energizado pela manifestação, portava cartazes esclarecendo que o protesto não era contra a seleção. Era contra... uma série de coisas. Contra "tudo que está aí", como se dizia em outra época.

Nesse clima, um ato emocionante. A torcida continuou a cantar, a capela, o Hino Nacional encurtado pela Fifa por razões de tempo. No clima patriótico que ali se formava, não se toleravam resumos. O Hino tinha de ser entoado na íntegra, em sua quilométrica letra. E assim aconteceu, emocionando até os mais experientes e empedernidos jornalistas lá presentes.

Dentro de campo, talvez contaminada pelo clima ambiente, a seleção jogou seus melhores 20 minutos desde que foi formada por Luiz Felipe Scolari. Jogou "à brasileira", com fome de ataque, acuando o adversário, envolvendo-o em passes sutis e rápidos, dribles e deslocamentos. A síntese dessa postura ofensiva foi o gol de Neymar, uma bola espirrada que caiu em seu pé esquerdo (estava em ótima posição) e, de sem-pulo, foi direta para a rede mexicana. Lindo gol. Assim como foi excepcional a jogada do mesmo Neymar no segundo e último gol do jogo, passando entre dois defensores mexicanos como se fosse uma sombra e entregando, com açúcar e afeto, para Jô completar. Uma jogada perfeita, joia sem jaça do futebol-arte.

Houve naquela tarde de quarta-feira comunhão entre a seleção e a torcida, coisa que, da forma como se deu, não se produzia havia muito tempo.

Um dos temores da CBF era o crescente distanciamento entre time e torcida, que só vinha aumentando nos últimos anos e por culpa principal da própria entidade. Por razões de mercado, a seleção jogava nos quatro cantos do mundo menos em seu país. Os mais cínicos diziam que ela jogava "em casa" quanto atuava no londrino Emirates Stadium, um dos seus palcos favoritos. Uma postura muito elitista, arrogante e distante dos jogadores atuando na Europa contribuiu para a sensação de que a seleção, um dos símbolos nacionais, fosse vista pelos torcedores como algo que se tornara estranho a nós.

Pois bem, talvez como subproduto de manifestações que resgataram a rua para os cidadãos, a seleção, como símbolo, também foi recuperada, da mesma forma que o Hino Nacional e as bandeiras verde-amarelas. O nacionalismo, até pouco ironizado pelos bem-pensantes de terno e gravata, tornou-se de novo permissível, e quase obrigatório. De repente, uma nação, periodicamente atacada pela síndrome descrita por Nelson Rodrigues como "complexo de vira-latas", descobre-se orgulhosa de si mesma.

Algumas pessoas ligadas ao futebol tiveram a percepção exata do momento. Outras não o compreenderam direito. Joseph Blatter, Jerôme Valcke, José Maria Marin, Aldo Rebelo, Ronaldo, parecem preocupados demais com o prejuízo que essa ligação entre futebol e manifestações populares possa trazer à boa organização dos jogos. Bobagem. O futebol tem laços estreitos com a política, para o bem e para o mal. Na Copa de 1938, Mussolini ameaçava os jogadores italianos com a ordem de vincere o morire (vencer ou morrer). Na Copa de 1970, os militares brasileiros tentaram instrumentalizar a vitória no México. Mas a própria excelência da seleção ia além das intenções dos ditadores e fornecia ao povo uma visão lúdica de coesão e criatividade, e era motivo de orgulho. A seleção de Pelé, Tostão, Jairzinho, Clodoaldo, Carlos Alberto Torres, Gérson e Rivellino era do povo e não dos milicos. Isso ficou claro quando militantes de esquerda desobedeceram a ordens dos seus comandos de "torcer contra a seleção para não dar armas ao inimigo". Ninguém resistia à seleção, ela era coisa nossa.

Diferentemente de cartolas, políticos e ex-jogadores acomodados ao establishment, Neymar, astro do jogo e, possivelmente, o grande ídolo para a Copa de 2014, postou texto muito interessante numa rede social: "...Sempre tive fé que não seria necessário chegarmos ao ponto de ir para as ruas para exigir melhores condições de transporte, saúde, educação e segurança, isso tudo é OBRIGAÇÃO do governo... A partir deste jogo, contra o México, entro em campo inspirado por essa mobilização...#Tamojunto"".

Enfim, são coisas díspares e ainda estamos tateando um conceito unificador que nos permita assimilá-las. Protestos contra aumento de tarifas que se transformam em manifestações generalizadas a propósito de tudo que nos incomoda, da falta de seriedade com o dinheiro público à vida intolerável nas metrópoles. Numa óbvia crise da representação do poder político, o povo, ou parte dele, foi à rua e resolveu falar por conta própria. O que se chama de "falta de foco" das manifestações talvez exprima, pelo contrário, sua abrangência. O repúdio às bandeiras partidárias aponta para uma indefinição ideológica que talvez seja natural em nosso mundo fragmentado. Quis o acaso – ou talvez não se deva usar o termo – que houvesse no Brasil, na mesma época das manifestações, um torneio internacional que multiplicasse sua visibilidade.

Nesse movimento de reapropriação do ser nacional (e talvez seja esse o conceito unificador), nada mais natural que a seleção brasileira fosse tomada de volta como símbolo do País. É bom sinal que tenha respondido em campo a esse chamado.

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