Brasil faz parceria com prêmio Nobel

Laboratório fará testes clínicos para avaliar drogas contra diarreia e câncer desenvolvidas por Ferid Murad, laureado em 1998

MARIANA LENHARO, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2012 | 02h04

O Brasil deve pôr em prática, nos próximos anos, testes clínicos para avaliar a eficácia de dois tratamentos desenvolvidos pelo pesquisador Ferid Murad, prêmio Nobel de Medicina de 1998. Um deles é para diarreia infantil e doença inflamatória do intestino e o outro, para um tipo de tumor cerebral comum e agressivo: o glioblastoma. A iniciativa é resultado de uma parceria oficializada na semana passada em São Paulo entre Murad e a indústria farmacêutica Biolab.

Os estudos com pacientes serão desenvolvidos com a colaboração da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). No caso da droga contra a diarreia, a previsão é de que os testes comecem em dois anos.

Murad diz que a diarreia pode ser provocada por várias bactérias, entre elas a Escherichia coli. O que seu grupo de pesquisa descobriu em 1978 foi que o mecanismo de atuação da E. coli envolve o aumento da produção da molécula GMP cíclico. Foi o estudo desse mensageiro químico que lhe rendeu o prêmio Nobel (mais informações nesta pag.). Há oito anos, descobriu um componente capaz de bloquear a produção de GMP cíclico pelas bactérias.

Em animais, o uso desse componente cessou a diarreia provocada pela E. coli e também pelo vibrião colérico, ligado à cólera. Principalmente entre crianças e idosos, a desidratação decorrente da diarreia pode matar. Hoje, o tratamento indicado é a reidratação com soro caseiro, feito com água, sal e açúcar. Trata-se de uma receita simples e barata, porém o problema é o acesso à água limpa em situações de desastres naturais, como enchentes, furacões e terremotos.

"Há cerca de três anos, um furacão atingiu o Haiti. Mais de mil pessoas morreram de diarreia. Se houvesse uma droga como essa, isso não teria acontecido", observa. O objetivo da pesquisa é obter uma pílula capaz de cessar a diarreia sem depender da disponibilidade de água limpa.

Estudo complementar, feito em parceria com a Biolab em uma universidade do Canadá, mostrou que as conclusões são válidas para diarreias não relacionadas a bactérias. "Poderia ser útil não só para diarreia, comum no terceiro mundo, como para doenças inflamatórias do intestino, típicas de primeiro mundo, e para as quais não há remédio eficaz", diz Gilberto De Nucci, professor da Unicamp.

Câncer. Ao identificar que em muitos tipos de tumor faltava uma enzima que produz o GMP cíclico, Murad desenvolveu a hipótese de que, aumentando a produção dessa molécula, o tumor pararia de crescer.

Em camundongos, a aplicação dessa estratégia quadruplicou a sobrevida. Enquanto os que não receberam o tratamento sobreviviam apenas 21 dias depois do início do câncer, os que foram tratados sobreviveram 84 dias.

"Esse conceito pode ter aplicação para câncer de pulmão, pâncreas e ovário", diz Murad. Em 2013, uma pesquisa na Unicamp testará se a medicação é capaz de chegar ao cérebro dos pacientes. Essa etapa, mais inicial do que a pesquisa sobre diarreia, é chamada de prova de conceito.

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