Brasil luta por uma causa perdida

É inútil, desnecessária e improdutiva essa discussão publica, em Genebra, entre o ministro das Relações Exteriores e o representante comercial dos Estados Unidos a respeito de Doha. Enquanto todos procuram um enterro digno, como ressaltou um negociador europeu, e se calam, o Brasil sai atirando sozinho. A culpa do fracasso é só e unicamente dos EUA. Esquecemos que a União Europeia silencia porque concorda com o governo americano. Para eles, não há acordo se os países em desenvolvimento também não fizerem concessões.

Alberto Tamer*, O Estadao de S.Paulo

03 Dezembro 2009 | 00h00

Antes, eram exigências só para o setor industrial, mas agora incluem o agrícola. Estão com seus armazéns lotados de trigo, soja, milho, leite. Precisam proteger seus produtores, mesmo que já estejam agraciados com subsídios generosos que levam anos de discussão na OMC.

Se quando cresciam a quase 5% os EUA e a UE não queriam nada, é evidente que também não vão querer agora que mal estão saindo da recessão. Para eles, o mercado interno é preferencial neste momento de crise; a prioridade é protegê-lo contra a competição externa que aumentaria ainda mais a taxa crescente de desemprego já próxima de 10%.

NÓS TAMBÉM

Para eles, não. Para nós, também. É inimaginável pensar que vamos reduzir tarifas de importação quando a indústria recua e vacila, quando apenas agora o mercado de trabalho reage. As exportações de manufaturados para os EUA, em novembro, recuaram 43,7% em relação ao ano anterior, e 18% para o mundo. Neste ano só aumentaram para a China, mais 21,6%. Mas isso porque eles só nos compram commodities como as agrícolas, de ferro e soja e nos exportam produtos industriais. Não só isso, nos rouba mercado aqui dentro, e no exterior. Dos EUA e até da Argentina. Só faltam o Paraguai e o Uruguai.

DESGASTAR, POR QUÊ?

Se antes, quando tudo estava bem não havia acordo, por que haveria agora?

Se essa é a realidade, para que se desgastar, discutir enquanto os nossos parceiros de "luta" se acomodam num mutismo conveniente e oportuno? O acordo de Doha está sendo debatido em vão há oito anos. E nessa reunião de Genebra que terminou ontem, só se buscava uma forma honrosa de enterrá-lo, como afirmou um dos quase 100 negociadores que acorreram com prazer a essa cidade tão agradável de lagos magníficos? Por que não outra reunião, no próximo ano? Mas, por favor, depois do inverno. Doha morreu há pelo menos três anos e só o Brasil, ninguém sabe por que, e a OMC, para sobreviver, acreditam nela.

MAS TEMOS QUE PROTESTAR!

Por quê? Se ninguém mais protesta com a nossa veemência que provoca atritos inúteis e dispensáveis? Nossa prioridade deve ser aumentar as exportações para quem nos importava mais até agora: Estados Unidos e União Europeia. Agora, a China chegou, mas é uma parceira incômoda. Importa 80% de matérias-primas e nos exporta outro tanto de produtos industrializados, que competem com os nossos, no País e no exterior. Uma parceira no mínimo desconfortável e nada confiável.

E nossas exportações para o mercado americano praticamente estagnaram. Não só isso, recuaram quanto à sua participação total:

2006 - US$ 24,7 bilhões, que equivaleram a 18% do total exportado pelo Brasil;

2007 - US$ 25,3 bilhões, que equivaleram a 15,8% do total exportado pelo Brasil;

2008 - US$ 27,6 bilhões, que equivaleram a 14% do total exportado pelo Brasil.

Em 2009, até novembro, houve uma queda inadmissível de 43,7%!

"Um dos grandes desafios no ano que vem é retomar a presença brasileira em mercados importantes como os Estados Unidos, que ao longo de 2009, recuou 43,7%, afirmou Weber Barral, secretário de Comércio Exterior do Ministério de Desenvolvimento. "Os Estados Unidos são uma das prioridades para o ministério em 2010, uma vez que nossas exportações para lá são majoritariamente de produtos industrializados e de alto valor agregado."

Não deixa de ser no mínimo estranho que seja exatamente com esse parceiro comercial que o Itamaraty decidiu brigar em defesa de uma causa perdida...

EUROPA TAMBÉM

Em relação à União Europeia, o quadro é idêntico. Até outubro de 2009 (dados disponíveis), as exportações brasileiras para o mercado europeu foram compostas por 50% de produtos industrializados e 49,1% de básicos. Em relação a 2008, houve queda de 49,6% nas vendas de bens semimanufaturados, de 25% nas de manufaturados e de 26,2% nas de produtos básicos. De novo, dados oficiais, do governo.

É um cenário de distorções inaceitáveis, mas que estamos aceitando e agravando há anos. Por quê?

*E-mail: at@attglobal.net

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