Brasil pressiona e líder da ONU recua

Um dia depois de definir texto da Rio+20 como pouco ambicioso, Ban Ki-moon é criticado pelo Planalto, volta atrás e elogia documento

FERNANDO DANTAS /RIO, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2012 | 03h04

Reagindo à irritação do governo brasileiro com seu discurso da quarta-feira, no qual afirmou que esperava um documento final da Rio+20 mais ambicioso, o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, convocou ontem às pressas a imprensa brasileira para fazer um giro de 180 graus. Na entrevista coletiva, ele voltou atrás e declarou que o texto final da conferência, em sua opinião, é sim "ambicioso", além de "amplo e prático".

O secretário-geral aproveitou para cobrir a presidente Dilma Rousseff e sua equipe diplomática de elogios, num momento em que as críticas generalizadas ao documento final causam desconforto no Planalto. "Seria justo que a população brasileira soubesse o quão importante foi a contribuição que o Brasil teve para o sucesso da Rio+20", disse. Ban agradeceu "a liderança visionária da presidente Dilma Rousseff e sua equipe".

O sul-coreano também elogiou o texto da conferência: "Esse é um documento final que contém pacotes amplos, ambiciosos e práticos para o desenvolvimento sustentável, garantindo os três pilares dos nossos objetivos: equidade social, desenvolvimento econômico e sustentabilidade ambiental".

Foi a reação negativa do governo brasileiro ao discurso de Ban sobre a insuficiente ambição do documento final que levou o secretário-geral a chamar a imprensa brasileira para se desdizer. Segundo fontes diplomáticas ouvidas pelo Estado, a irritação do Brasil foi transmitida de forma "pouco suave" à ONU - e teria partido principalmente da presidente Dilma Rousseff.

Na ONU, há desconforto com a situação. A visão que a diplomacia brasileira conseguiu de fato um grande feito ao fechar em três dias um documento que vinha sendo debatido pelos países, como um enorme número de discordâncias, por meses. Há na entidade internacional uma genuína admiração pelo trabalho do Itamaraty.

Por outro lado, porém, a percepção é que seria impossível para a diplomacia brasileira resolver um número tão grande de questões sem reduzir a substância e a ambição do texto. A timidez do documento final é uma visão quase unânime, variando apenas o grau da crítica - muito mais ácida no caso das ONGs, atenuada e buscando aspectos positivos no caso dos governos que o aprovarão hoje.

O chanceler brasileiro, Antonio Patriota, fez referência às insatisfações provocadas pelo documento final. A reação do Planalto ao discurso de Ban, portanto, surpreendeu a ONU.

Um experiente diplomata lembrou que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva propôs a realização da Rio+20 em 2007, quando o mundo estava no ápice do boom econômico e havia um otimismo generalizado.

A conferência em si, porém, acabou sendo realizada na esteira da pior crise econômica desde a década de 30, o que reduziu muito a disposição de financiamento dos países ricos. Isso, por sua vez, tornou o ambiente de negociação mais recriminatório e menos propenso a se alcançar a tão almejada ambição.

As nações ricas, por exemplo, acham que a força econômica obtida nos últimos anos por alguns emergentes, como Brasil e China, deveria levar a uma maior contribuição desses países no financiamento da transição para o desenvolvimento sustentável.

"Com o crescimento, vem a responsabilidade. E acho que todos que têm uma economia se movendo dessa forma deveriam contribuir", disse Kerri-Ann Jones, secretária assistente do Departamento de Estado Americano para Oceanos e Assuntos Ambientais e Científicos Internacionais.

Entre os países da União Europeia (UE), os mais insatisfeitos com o documento final, foram também os mais críticos da forma como a diplomacia brasileira acelerou a negociação para fechar o texto, na terça-feira.

"Estávamos prontos para nos engajar em negociações também em nível ministerial", disse, na tarde da terça-feira, Janez Potocnik, comissário europeu para o meio ambiente e principal negociador da UE na Rio+20. A referência foi ao fato de que o fechamento do acordo sobre o texto antecedeu a chegada de muitos ministros de Estado e foi concluída basicamente num degrau abaixo na hierarquia de poder - como desejado e executado pela diplomacia brasileira.

Um negociador europeu que preferiu não se identificar disse ao Estado que o Brasil "forçou a mão" para fechar o acordo sobre o texto final. "Isso era para ser um documento da ONU - e não do Brasil", comentou, acrescentando ironicamente: "É verdade que até há uns trechos lá dentro que são da ONU".

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