Brasil se choca com esforço dos EUA para conter Irã

Visita seria esforço de Lula para movimentar-se na política do Oriente Médio

Alexei Barrionuevo, THE NEW YORK TIMES, O Estadao de S.Paulo

24 de novembro de 2009 | 00h00

As ambições do Brasil de se tornar um ator mais importante no cenário diplomático global estão se chocando com os esforços dos Estados Unidos e de outras potências ocidentais de coibir o programa de produção de armamentos nucleares do Irã.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu ontem o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, na primeira visita oficial deste ao Brasil. A presença do iraniano faz parte de um esforço maior de Lula de movimentar-se no ambiente aparentemente indecifrável da política do Oriente Médio, depois das visitas, nas duas últimas semanas, do presidente de Israel, Shimon Peres, e de Mahmoud Abbas, da Autoridade Palestina.

Parlamentares e ex-diplomatas no Brasil e nos Estados Unidos, porém, criticam a iniciativa, alegando que poderá comprometer os esforços do Ocidente para pressionar o Irã a acabar com seu programa nuclear e, consequentemente, congelar as relações do Brasil com os EUA e prejudicar sua crescente reputação de potência global. Segundo autoridades brasileiras, o objetivo da visita é fortalecer laços comerciais entre os dois países e contribuir para levar a paz ao Oriente Médio.

"É objetivo do Brasil projetar seu papel e fortalecer-se como ator global", disse Michael Shifter, vice-presidente do Diálogo Interamericano, grupo de pesquisa da sociedade civil sediado em Washington. "E em parte tem a ver com a mensagem que o Brasil está enviando a Washington de que tratará com quem bem entender."

Críticos no Brasil e nos EUA ainda afirmam que, ao receber o iraniano, Lula está legitimando Ahmadinejad, apenas cinco meses depois do que a maior parte do mundo considerou como reeleição fraudulenta.

"Esta visita de Estado é um terrível erro", disse o deputado Eliot L. Engel, presidente do subcomitê da Câmara para o Hemisfério Ocidental.

As relações entre os EUA e o Brasil já estavam tensas depois que o governo de Lula criticou os EUA pela condução da crise de Honduras e pelo aumento de sua presença militar na Colômbia. Mas a abertura de Lula ao Irã é coerente com a política de envolvimento do presidente Barack Obama, que está otimista com a possibilidade de a reunião não prejudicar, e até mesmo fortalecer, os esforços empreendidos por Washington para tratar com o Irã.

MOMENTO CRÍTICO

"Esperamos que nossos aliados compreendam que se trata de um momento crítico para o próprio Irã", disse, na quinta-feira, um dos porta-vozes do Departamento de Estado, Ian C. Kelly. "Esperamos que o Brasil tenha um papel construtivo."

O chanceler Celso Amorim frisou que Lula foi encorajado pelos líderes ocidentais, incluindo o próprio Obama, a procurar "diálogo aberto e direto" com o Irã, particularmente na questão nuclear. "Foi dito e reiterado que é do interesse das nações ocidentais que o Brasil tenha contatos positivos com o Irã."

Funcionários brasileiros afirmaram que Lula tentará convencer o Irã a adotar um programa nuclear no estilo do brasileiro, que, pela Constituição, deve limitar-se ao uso civil. Mas Amorim deixou claro que o Brasil não considera que seja sua função defender o acordo proposto ao Irã de exportar a maior parte do seu urânio enriquecido para que seja processado como combustível nuclear.

Desde sua eleição, em 2002, Lula procurou cimentar o predomínio do Brasil como líder econômico e diplomático da América Latina. Seu governo pleiteou uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU e se tornou uma voz respeitada nas discussões sobre a mudança climática mundial. Nos últimos meses, ele acrescentou a diplomacia no Oriente Médio ao seu portfólio.

"O Brasil deve esperar ser criticado por receber Ahmadinejad", afirmou Julia E. Sweig, especialista em América Latina do Conselho de Relações Exteriores. "Mas, se puder desempenhar papel moderador na questão nuclear, e é o que Washington espera, seguramente poderá responder aos críticos."

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