Wildes Barbosa/O Popular
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Ugo Giorgetti
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Brasileiríssimo esquerdinha

O dia em que o massagista do Aparecidense, um figuraça estilo anos 40, desafiou a modernidade

Ugo Giorgetti, O Estado de S. Paulo

14 de setembro de 2013 | 13h31

Esquerdinha estava encostado negligentemente na trave. Essa é uma frase que merece análise. Primeiro o apelido: ninguém mais se chama Esquerdinha no futebol. É um nome que remete imediatamente aos perdidos anos 1940 ou 50, quando havia profusão de Esquerdinhas pelo Brasil. Hoje a coisa está mais para John Lennon ou Allan Kardec. Depois a atitude: encostar em alguma coisa é uma atitude tradicional do macho brasileiro. Ninguém nas proximidades de um poste, de uma árvore, de uma coluna, de um carro estacionado, resiste ao impulso de se encostar pra descansar o corpo. Portanto, o brasileiríssimo Esquerdinha descansava o corpo na parte externa da trave durante um jogo da quarta divisão do Campeonato Brasileiro. O jogo, decisivo aliás, corria, e lá estava Esquerdinha encostado na trave com sua maleta de medicamentos ao lado.

Esquerdinha é massagista do Aparecidense, um dos times, que disputava a classificação contra o Tupi. Todos no estádio devem ter visto o homem ao lado da trave. Torcedores devem ter visto, o juiz também, os atacantes do adversário idem, o goleiro, sem dúvida, pois Esquerdinha estava bem ao lado. Alguns devem ter achado estranho, bizarro, uma esculhambação, mas não uma ameaça. A ninguém ocorreu que Esquerdinha não tivesse apenas um nome antigo, mas fosse, em tudo, um homem do passado.

É um erro, me parece, pensar que somos todos contemporâneos. Vivemos, a maioria de nós, em épocas mais ou menos distintas que não se revelam muito na pressa do cotidiano. Suspeitamos apenas que, às vezes, estamos falando com alguém que está mentalmente em algum lugar que não sabemos. E de repente o passado que o envolve surge. Foi o que aconteceu. O episódio todo mundo seguiu pela TV, e agora pelo YouTube. É inútil insistir com pormenores.

O fato é que de repente o inocente personagem languidamente encostado na trave se materializou na risca do gol e defendeu uma bola que ia entrar inapelavelmente. Duas vezes. Na segunda vez Esquerdinha, o massagista, ainda caído, defende definitivamente. Os anos 1940 tinham feito sua entrada gloriosa na modernidade. O futebol de uma várzea sepultada, de histórias mirabolantes, tinha voltado para assombrar um campeonato brasileiro. Lendas que passam de geração para geração em conversas nos bares de cidades pequenas do interior voltaram por uma vez a se produzir.

O momento de perplexidade que atingiu o estádio inteiro foi suficiente para que Esquerdinha empreendesse uma fuga espetacular em direção de seu vestiário, perseguido pelo time inteiro do adversário, agora recobrado da surpresa. Esse homem antigo provavelmente pensava que a coisa ia terminar com uns sopapos e a volta triunfal para sua cidade, onde seria recebido como herói, com sua façanha repetida por meses e meses entre gargalhadas.

Mas, assim como ele tinha desafiado a modernidade, a modernidade, num movimento dialético, caiu sobre ele. Esquerdinha deve ter, por um momento, esquecido que aquele jogo, por incrível que possa parecer, era transmitido por uma televisão e tinha até patrocinadores que pagaram por ele. Jamais pensou que cinco minutos depois do jogo suas defesas sensacionais estariam em poder até do presidente da Fifa, por cuja cabeça devem ter passado flashes rápidos do dia terrível em que o Brasil ganhou o direito de organizar a Copa. Acima de tudo, Esquerdinha não contava com o poder das câmeras que nos espionam, nos invadem e nos denunciam a todo instante.

Esquerdinha, com seu gesto, acabou por cair em plena contemporaneidade. Cada movimento seu foi minuciosamente examinado. O gol salvo, depois a fuga seguida por uma câmera implacável, enquanto corria desesperadamente, frascos de energético saltando fora de sua maleta de massagista. A objetiva o enquadrava obsessivamente, implacável, enquanto ele saltava placas de publicidade com a agilidade de quem depende das pernas para salvar a pele, e terminou quando ele despareceu vestiário adentro.

Nas entrevistas que se seguiram o aturdido Esquerdinha parecia não compreender por que tanto barulho por tão pouca coisa. Era apenas um jogo de bola! Talvez soubesse que não adiantava explicar de onde vem, e em que ano do calendário gregoriano vive mentalmente. Haverá punições. Mas não acho necessárias, sobretudo se houver outro jogo, já que devem anular esse. Sendo praticado esse ato de justiça para com o Tupi, o resto vai tudo a favor de Esquerdinha. Divulgou para todo o País a cidade, o estádio, as equipes, inclusive o treinador, de quem agora sabemos até o nome: Karmino Colombini foi entrevistado, e sua imagem viajou o Brasil.

Houvesse justiça no mundo e Esquerdinha deveria ter direito até a recompensa financeira de patrocinadores que, por sua ação, tiveram seus nomes gratuitamente espalhados pelo Brasil. Houvesse justiça no mundo, Esquerdinha deveria fazer jus, no mínimo, a um plano odontológico "Belo Dente", placa de publicidade que ultrapassou com um lindo salto na sua apressada rota para o vestiário.

UGO GIORGETTI É CINEASTA E COLUNISTA DO

ESTADO. DIRIGIU, ENTRE OUTROS FILMES,

BOLEIROS – ERA UMA VEZ O FUTEBOL... (1988)

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