Dida Sampaio/ Estadão
Dida Sampaio/ Estadão

Brasileiro é aposta fora da Europa

Conhecido pela firmeza, mas aberto ao diálogo, d. Odilo tem como trunfo experiência na Cúria, onde integra vários órgãos

JOSÉ MARIA MAYRINK, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2013 | 02h03

Eficiente, determinado, firme, centralizador, inteligente e amigo. Quem conhece d. Odilo Pedro Scherer de perto e, principalmente, quem trabalhou com ele só tem elogios para o amigo, parente ou chefe que entrou no conclave como um dos candidatos prováveis - os papáveis - à sucessão de Bento XVI.

Quando lhe perguntei, cinco dias antes de sua partida para Roma, se estava comprando passagem de ida e volta, o cardeal-arcebispo de São Paulo, sorriu, mas não respondeu, na suposição de que era apenas uma brincadeira. Desconversava, toda vez que um jornalista voltava à questão, enquanto as especulações em torno de seu nome cresciam na imprensa.

"Se os cardeais optarem pela eleição de um papa não italiano e não europeu, d. Odilo tem chance de ser escolhido, porque é preparado e bem afinado com a Cúria Romana", disse padre José Oscar Beozzo, teólogo e historiador.

Ao se despedir de Bento XVI, no beija-mão da Sala Clementina, na manhã de 27 de fevereiro, a rápida conversa que tiveram girou em torno da cidade e da Arquidiocese de São Paulo, conforme o cardeal relatou à Rádio Vaticano: "Ao chegar perto dele, imediatamente foi dizendo 'São Paulo, São Paulo'. (...) Ele foi muito marcado por aquela visita em 2007".

D. Odilo foi nomeado arcebispo de São Paulo em abril de 2007, semanas antes da visita de Bento XVI. O papa canonizou Frei Galvão, o primeiro santo nascido no Brasil, no Campo de Marte e abriu a 5.ª Conferência do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, em Aparecida. Anfitrião de Joseph Ratzinger em São Paulo e secretário adjunto da conferência continental dos bispos, d. Odilo conversou com ele em alemão.

Neto de imigrantes alemães, d. Odilo nasceu em 21 de setembro de 1949 em Cerro Largo (RS). Saiu de lá quando seus pais, Edwino e Francisca Wilma, mudaram-se, três anos depois, para o Paraná. Ele e mais 10 irmãos (eram 13, mas 2 meninas morreram). Cresceu na colônia Dois Irmãos, em Toledo, estudando e trabalhando na roça.

"A gente dava duro na lavoura, pois a família não tinha lá muitos recursos", recorda Flávio Scherer, um dos seis filhos homens de Francisca e Edwino. Dono de uma fazenda de 40 alqueires, o pai plantava café, feijão, milho, arroz e mandioca e criava galinhas, gado e porcos.

"Edwino e meu pai, Avelino, seu irmão, foram para o Paraná quando as saúvas atacaram suas terras no Sul, e trabalharam juntos", contou d. Irineu Roque Scherer, bispo de Joinville (SC). Primos-irmãos, os dois estudaram juntos no seminário. "Um ano à minha frente, Odilo era muito esforçado e inteligente, um guri brilhante, exceto no futebol, pois em campo era um pé rapado", lembrou d. Irineu em 2007.

Odilo Pedro Scherer subiu rapidamente na hierarquia. Foi nomeado cardeal em novembro de 2007, seis meses após a visita do papa. Ordenado padre em dezembro de 1976 e bispo em 2002, por cinco anos foi auxiliar do cardeal d. Cláudio Hummes, em São Paulo. Foi eleito secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) em 2003, quando o cardeal d. Geraldo Majella Agnelo assumiu a presidência.

Estudioso. Mestre em Filosofia e doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, fez cursos de aperfeiçoamento na Alemanha e na França. Trabalhou mais de sete anos como oficial da Congregação para os Bispos no Vaticano, após ter sido professor em seminários e faculdades de Cascavel, Londrina e Toledo (PR).

"D. Odilo é um 'trator' para trabalhar", disse padre Valdeir dos Santos Goulart, que por quatro anos esteve ao lado do secretário-geral da CNBB, em Brasília. "Inteligente e aberto ao diálogo, d. Odilo tratava de todos os assuntos, sem radicalismo", lembrou padre Valdeir, discordando da imagem de autoritário e centralizador que às vezes se tem do arcebispo de São Paulo. "Ele é um homem decidido, isso sim", completa.

Por exemplo, no episódio da eleição para a reitoria da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), em 2012, quando d. Odilo, grão-chanceler da instituição, escolheu a professora Ana Cintra, terceira colocada na lista tríplice, contrariando funcionários e alunos. Apesar de críticas e protestos, não voltou atrás.

Na Cúria Romana, é membro da Congregação para o Clero, dos Pontifícios Conselhos para a Família e para a Promoção da Nova Evangelização, da Pontifícia Comissão para a América Latina e da Comissão Cardinalícia de Vigilância do Instituto para as Obras Religiosas, mais conhecido como Banco do Vaticano. É membro também do Conselho de Cardeais para o Estudo dos Problemas Organizacionais e Econômicos da Santa Sé.

Esses cargos habilitariam d. Odilo a assumir uma congregação romana, como a da Doutrina da Fé, dos Bispos ou do Clero, no próximo pontificado. Foi o que o ocorreu com d. Cláudio Hummes, um dos papáveis de 2005, que Bento XVI nomeou prefeito da Congregação para o Clero.

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