Brasileiro não ganhou mais votos após 1ª votação

Cenário: Jamil Chade

É JORNALISTA, O Estado de S.Paulo

15 de março de 2013 | 02h05

Quem entra papa num conclave, sai cardeal. Poucas vezes o ditado mais alertado de Roma foi tão claro como nesta semana. O brasileiro Odilo Scherer era apontado como um dos favoritos e um grupo de cardeais foi mobilizado para apoiar e vender a ideia de sua candidatura. Mas, diante de sua proximidade com o polêmico secretário de Estado, Tarcísio Bertone - acusado de ser a raiz dos problemas da Igreja -, e suas posições em relação ao Banco do Vaticano, o resultado foi uma decepção. Quieto e sem chamar a atenção, o argentino Jorge Bergoglio surpreendeu.

Desde a renúncia de Bento XVI há um mês, a imprensa, vaticanistas e os próprios cardeais passaram a apontar nomes de eventuais sucessores. O italiano Angelo Scola era o mais citado, ao lado do brasileiro.

Na quarta-feira, comentaristas de TV e mesmo os fiéis ficaram em silêncio por alguns segundos ao escutar o nome do novo papa. Alguns por não saber de quem se tratava. Outros, por espanto diante da escolha. Tanto Scola quanto Scherer não avançaram como esperavam seus grupos de apoio. No caso do brasileiro, os votos que ele obteve na primeira rodada, ainda que não desprezíveis, ficaram estagnados.

Fontes ouvidas pelo Estado confirmaram que os debates acirrados dos últimos dias e a posição de Scherer de proximidade com a Cúria frustraram o apoio a ele e, no final, acabou sendo bem inferior ao que o grupo que fazia o lobby esperava.

Ao tomar a palavra para falar na segunda-feira, Scherer defendeu a situação do Banco do Vaticano, instituição que se transformou numa espécie de síntese da crise de administração da Santa Sé e da falta de transparência. O banco chegou a ter parte de seu dinheiro congelado em 2012 pela Justiça italiana. Scherer foi e continua sendo um dos membros do conselho da instituição.

Sua intervenção acabou enterrando suas chances, criando um sentimento entre cardeais de que teriam de buscar uma alternativa. Se o apoio a Scherer despencou ao que se imaginava, dezenas de votos começaram a migrar para Bergoglio que, apesar da idade, foi considerado como o nome ideal para superar o embate entre as facções. O cardeal de Santiago, Javier Errázuriz Ossa, deu pistas sobre o que ocorreu há dois dias no conclave. "Bergoglio tinha um ponto que pesava contra ele, que era sua idade. Mas começou a surgir com força e, depois do almoço da quarta-feira, surpreendeu na eleição ao aparecer com boas chances", disse. "Foi o que faltava para que houvesse uma migração de votos a ele", apontou.

O resultado, porém, foi um golpe às previsões de vaticanistas, apresentados como especialistas nos assuntos internos da Santa Sé e que se frustraram com todas as previsões. Marco Politi, um dos principais vaticanistas, admite a surpresa. Mas rejeita o erro dos especialistas em não prever o nome do argentino. Afinal, em 2005, ele já havia sido derrotado na eleição que apontou Joseph Ratzinger como o novo papa e, no Vaticano, não há uma tradição de voltar a concorrer depois de uma derrota. "Não houve um erro. Houve uma real surpresa nas cinco rodadas de votações. Ficou claro que os cardeais foram buscar uma alternativa fora dos grupos de poder", indicou Politi ao Estado. "Scherer era candidato e Scola queria ser papa. Mas ficou claro que não havia um acordo", disse. Segundo o jornal La Stampa, Scola não conseguiu avançar por conta da "traição" dos demais cardeais italianos, que não optaram por votar por ele. Já o cardeal espanhol Carlos Amigo Vallejo negou que Francisco seja um novo papa de transição, por conta de sua idade avançada e, portanto, não tenha um pontificado longo. "Ele vai ser um ponto de inflexão. Não é mais uma transição", disse o espanhol.

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