Acervo/Estadão
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Brasileiros na guerra

Quando o governo declarou guerra à Alemanha, em 26 de outubro de 1917, brasileiros já lutavam e morriam nos fronts da Europa. Barbárie do conflito marcou declínio da influência cultural e política do Velho Mundo sobre a América Latina, diz pesquisador

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

26 de julho de 2014 | 20h19

“Em 20 de agosto de 1917, combateu com coragem admirável e tomou sozinho uma trincheira, obrigando dez inimigos a entregar as armas. Ferido por três estilhaços de obus, recusou-se formalmente a ser evacuado”, registram documentos da Legião Estrangeira da França, a respeito do tenente Gustavo Gelas. Os relatórios continuam: “Suboficial de elite, voluntário alistado para a Grande Guerra. De uma bravura à beira da temeridade, distinguiu-se em cada caso no qual participou por sua coragem e suas realizações”.

Gelas seria mais um dentre milhões de bravos soldados da 1.ª Guerra Mundial se não tivesse recebido a medalha da Legião de Honra, que distingue os méritos civis e militares eminentes na França. Ele também seria só mais um dentre os agraciados pela distinção não fosse uma particularidade: o bravo soldado Gelas era brasileiro. 

Em 26 de outubro de 1917, o presidente do Brasil, Venceslau Brás, assinou o decreto de declaração de guerra à Tríplice Aliança. Mas, muito antes da formalidade histórica, esse outro Brasil já estava mergulhado na 1.ª Guerra. Desde o início do conflito, brasileiros de diferentes origens se engajaram e partiram para os fronts da Europa. Eles são parte de uma narrativa quase esquecida: a de soldados brasileiros que doaram suas vidas por pátrias estrangeiras entre 1914 e 1918.

É provável que soldados brasileiros tenham vestido uniformes da Alemanha, da Áustria-Hungria e até do Império Otomano, já que há registros da passagem de sul-americanos pelos três exércitos e colônias de imigrantes dos três países no Brasil, uma fonte de alistamento. Mas em nenhum dos casos eles teriam sido tão numerosos quanto os que lutaram – e morreram – pela França e a Tríplice Entente. 

Por meio do trabalho de especialistas, documentos de museus e arquivos públicos e papéis militares guardados no Castelo de Vincennes, na periferia de Paris, é possível resgatar informações de parte dos 81 brasileiros engajados para lutar ao lado da Legião Estrangeira em solo francês. 

O Estado teve acesso a documentos sobre a passagem de combatentes como os oficiais Gustavo Gelas e Luciano Antonio Vital de Mello Vieira. Encontrou ainda traços dos aviadores Lauro de Araújo, Hector Varady, Eugenio da Silva, Virginius Lamare Brito, Olavo de Araújo, Manuel Augusto Pereira de Vasconcelos e Fábio Sá Earp, treinados pela Força Aérea Real (RAF) britânica e alistados em combate pela França.

Do total de brasileiros em hostes da Legião Estrangeira, 15 morreram em operações nas mais ferozes frentes de batalha da Grande Guerra. Outros sobreviveram e fizeram carreira na Europa. É o caso do tenente Gelas. Nascido em 1890, em São Paulo, era dentista e se alistou de forma voluntária como legionário, a patente mais baixa da corporação, até ser promovido a tenente do 1.º Batalhão do 3.º Regimento Estrangeiro, em 23 de julho de 1922, um mês e oito dias após ser morto em combate em Meknès, no Marrocos.

Além dele, outro brasileiro chegou ao posto de oficial na 1.ª Guerra Mundial. Tratou-se do piloto Luciano Antonio Pital de Mello Vieira, tenente da Divisão Salmson da Legião Estrangeira. Voluntário em 30 de maio de 1917, teve vida breve no conflito: morreu em 31 de janeiro de 1918, aos 21 anos, na queda de seu avião.

Antepassados. De acordo com as bases de dados do exército francês, a lista de militares é em sua maior parte um elenco de “franco-brasileiros” que retornaram ao país de seus antepassados para lutar pela nação. São nomes como o do cabo Georges Maximilien Carpentier, nascido no Rio e morto em Marne, em outubro de 1915, ou do sargento Joseph Gérard Crouzet, carioca morto em Verdun, em julho de 1916.

“Eles não tinham obrigação de se alistar, mas alguns fizeram a escolha”, explica o comandante Michel Bourlet, doutor em História, pesquisador das Escolas Militares de Saint-Cyr Coëtquidan e especialista na participação latino-americana na guerra. 

De acordo com Bourlet, há ainda dois outros perfis: “Brasileiros que vieram do Brasil para se alistar e brasileiros que viviam na França e decidiram se engajar para combater na Grande Guerra”, conta. É provável que nessa última categoria estivesse o carioca Luiz França Oliveira, soldado de 2.ª classe recrutado em Nice, em 1915, e desaparecido na batalha de Somme, em 4 de julho de 1916, ou Candido Ferreira Bastos, também soldado de 2.ª classe, alistado em Bayonne e desaparecido em Neuville-Saint-Vaast.

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