Nasser Nasser/AP
Nasser Nasser/AP

Brecha na trincheira copta

Desaparecimento do papa Shenouda III ocorre num momento particularmente difícil para a minoria religiosa cristã egípcia

Aldo Cordeiro Sauda,

24 Março 2012 | 16h52

Das catracas do metrô de Demerdash até os portões da catedral copta do Cairo, não havia espaço suficiente. Espaço algum. A massa de fiéis da maior comunidade cristã do Oriente Médio acabou obrigada a chorar a morte de seu papa ao lado de fora do velório. Três morreram pisoteados, centenas ficaram feridos. Em meio ao calor, desmaios repentinos, principalmente entre mulheres mais velhas, tornaram-se fato corriqueiro. Não que elas caíssem, pois afinal era impossível enxergar o chão. Mantidas em pé pela densidade da massa compacta, as senhoras, vestidas de preto, eram aspergidas com água e acudidas em desespero por seus pares. Muito provavelmente as cenas carregavam algum grau de encenação, porém eram prova incontestável da devoção pelo homem que por mais de 40 anos dirigiu a principal igreja cristã do Egito.

A jornada para pedir a derradeira bênção ao papa Shenouda III embalsamado e exposto por quatro dias em seu trono combinava suplício religioso e curiosidade histórica, apimentada com certa dose de morbidade. Atravessar os estreitos portões da catedral, superar as barreiras militares e conseguir, de alguma forma, ganhar as escadarias que davam acesso ao pátio da igreja não era tarefa para homens de pouca fé. Assim mesmo, até entre os que atingiram as portas da catedral, quase nenhum entrou para assistir à missa.

O acesso ao interior da Catedral Copta Ortodoxa de São Marcos, a maior do país, foi em boa parte restrito a uma lista vip de personalidades cristãs e muçulmanas. Oficiais do Vaticano, embaixadores, representantes do clero islâmico e oficiais do governo receberam prioridade de acesso à missa fúnebre. Respeitando a hierarquia, os fiéis que conseguiram batalhar suas posições até a entrada da igreja curiosamente se limitaram àquele espaço. O empurra-empurra, até então a única atividade possível em meio ao caos, foi substituído pelo cantar pacífico e apaixonado de hinos religiosos.

A morte de Shenouda vem em um momento particularmente difícil para os coptas no Egito. Em meio ao chamado “inverno islâmico”, aparente herdeiro da Primavera Árabe, o futuro da comunidade parece cada vez mais intrincado. São crescentes os chamados, principalmente pelos ultraortodoxos salafistas, escola islâmica que defende uma interpretação rigorosamente literal do Alcorão, por uma redução ainda maior do direito dos coptas no país. A islamização da sociedade, principal ameaça à minoria que representa por volta de 10% da população, pode agravar ainda mais a exclusão dos cristãos dos espaços públicos nacionais.

Desprovida de uma liderança laica ou de partidos políticos, a comunidade viu sua fragilidade político-institucional se acentuar nas últimas eleições parlamentares, na qual elegeu apenas 8 dos 508 deputados do Congresso. Do outro lado, os islamistas, divididos entre a irmandade e os salafistas, conseguiram mais de 70% do Parlamento.

‘Quem vai nos proteger?'

As incertezas diante do futuro eram um dos grandes temas do funeral. “Perdemos nosso grande guia, bem agora, no meio deste caos que virou o Egito. Oh, Deus, quem vai nos proteger?”, perguntava, aos prantos, Mariam Bassiuni, uma das inúmeras fiéis que carregavam consigo um enorme pôster do papa, beijado seguidamente, entre soluços e lágrimas. Assim como muitos ali presentes, a devota viajou horas, da distante Assuã, para despedir-se do patriarca.

Foi exatamente a resistência ao temido processo de islamização que moldou o papado de Shenouda III. Sua chegada ao cargo máximo da igreja, em 1971, ocorreu em meio a uma reinvenção da identidade nacional. Em quatro décadas, Shenouda testemunhou a transformação do Egito de um país essencialmente pan-arabista em uma nação fortemente identificada com o Islã.

Curiosamente, Shenouda tomou posse na mesma época que o general Anwar Sadat assumiu a presidência. Sadat, diferentemente do seu antecessor, Gamal Abdel Nasser, teve seu regime marcado por conflitos constantes com o papa copta. Enquanto Nasser buscava explicitar sua amizade com a hierarquia da igreja, o novo presidente em momento algum disfarçou seu desdém pela minoria cristã.

Quando o então presidente, coerente com sua visão política, transformou a jurisprudência islâmica na principal fonte de legislação, a voz divergente de Shenouda destacou-se em meio ao silêncio da ditadura militar. A partir de então, os contornos da relação do Estado egípcio com a igreja copta nunca mais seriam os mesmos.

Os confrontos de Shenouda com o presidente atingiram até mesmo os debates de política externa. Consolidando sua identidade nacionalista e pan-arabista, o papa copta se opôs publicamente ao acordo de paz entre o Egito e Israel. Ao ser convidado por Sadat para a célebre viagem do presidente a Jerusalém, Shenouda respondeu que apenas o faria “de braços dados com todos os meus irmãos árabes e muçulmanos”. Logo em seguida, o papa proibiu qualquer cristão egípcio de peregrinações à Terra Santa enquanto a mesma estivesse sob controle israelense.

As posições de Shenouda frente a Israel ajudam a explicar a pequena, porém simbólica presença de muçulmanos no seu funeral. “Shenouda era um lutador egípcio, por isso todos o amamos”, afirmava Ahmad Farky diante da Catedral de São Marcos. “Sua defesa de Jerusalém representou o povo egípcio, e não esse ou aquele grupo religioso” dizia. Em um país onde a identidade nacionalista ainda goza de amplo apelo entre todas as comunidades, Shenouda soube inteligentemente consolidar-se como uma figura nacional, colocando-se acima de recortes sectários.

Apesar de sua popularidade, a posição política de Shenouda diante de Sadat logo se tornou insustentável, resultando no seu aprisionamento pelas forças do Estado. Isolado no convento de Wadi el-Natroun e proibido de deixar o espaço, Shenouda apenas foi solto após a morte de Sadat. Ironicamente, o “Presidente Fiel”, como Sadat gostava de ser conhecido, caiu vítima de um atentado terrorista levado a cabo pelos islamistas que ele próprio havia fortalecido.

Com a morte de Sadat e a vinda de Hosni Mubarak, que após assumir o governo libertou o papa de seu cativeiro, Shenouda remodelou drasticamente seu posicionamento frente o Estado. De opositor do regime, tornou-se fiel aliado. Sua adesão a Mubarak chegou a ponto de o pontífice defender, em meados de 2010, a nomeação de Gamal Mubarak, filho do presidente, para o cargo mais alto da república.

Shenouda passou a evitar confrontos com o Estado, mas, ao mesmo tempo, soube montar uma ampla rede de assistência a seu rebanho. Construiu hospitais, escolas e seminários, edificando aquilo descrito por muitos como um Estado dentro de um Estado. Se a sociedade egípcia se islamizava de um lado, ele buscou aproximar os coptas entre eles, levando-os para seu crescente isolamento do restante da sociedade.

Quando radicais islâmicos, a partir dos últimos anos de Mubarak, atacaram e incendiaram igrejas, Shenouda movimentou-se para impedir reações públicas da sua comunidade, convocada a rezar e jejuar. Com isso, conseguiu impedir de forma prudente escaladas de conflitos sectários.

Apesar de reforçar o caráter nacional e egípcio de sua igreja, o papado de Shenouda também teve uma forte atuação internacionalista. Empreendedor, o líder religioso expandiu a igreja copta mundo afora. Chegou até mesmo às terras verde-amarelas, onde o papa, em 2006, consagrou o templo copta construído no bairro paulista do Jabaquara.

Conservador, quando milhares de egípcios, cristãos e muçulmanos tomaram as ruas do Cairo exigindo a queda de Hosni Mubarak, Shenouda declarou que a ação ia contra a religião cristã. Mobilizando o clero contra a revolução, o papa, já com 87 anos, passou a ser visto com suspeita por diversos jovens coptas.

E no dia em que 27 manifestantes, cristãos em sua maioria, foram massacrados por forças do Exercito ao protestarem contra as discriminações que vinham sofrendo, Shenouda manteve-se silencioso. Buscando conciliar a comunidade com a junta militar que governa o país, o papa pediu para seu rebanho abster-se de criticar o Exército, focando suas energias apenas em orações.

‘Politicamente, ele foi um desastre’

“Em termos religiosos Shenouda foi um homem bom, mas politicamente foi um desastre” afirma o ativista Mina Naguib. Titular de uma badalada conta no Twitter, o jovem copta descreve o papa como “governista” e “pró-Mubarak”. “Ele isolou os coptas do resto da sociedade e politizou a igreja” alega.

O balanço negativo do papado é parcialmente amenizado por ativistas menos seculares e mais próximos da igreja. Bishoi Temer, dirigente do grupo União da Juventude de Maspiro, principal agrupamento de jovens cristãos que subsiste do lado de fora da hierarquia da igreja, vê em Shenouda uma figura cuja preocupação central girava em torno da unidade dos coptas.“Quando alguns padres se juntaram à Juventude de Maspiro, protestando contra o regime militar, a hierarquia da igreja logo se movimentou para excomungá-los. Se não fosse pela intervenção de Shenouda em nosso favor, estaríamos em uma situação muito pior.”

“Será impossível termos um substituto à altura de Shenouda”, lamenta Bishoi. “Tenho mil e uma discordâncias com ele, mas era carismático, sabia manter a igreja unida e conter reações extremadas e ataques à comunidade por radicais islâmicos”, afirma. Com um olhar entristecido e pouco otimista, conclui: “Não é fácil ser papa no Egito”.

O processo de seleção do novo pontífice, que tradicionalmente dura no mínimo um ano, ocorrerá simultaneamente à primeira eleição democrática no país para a presidência da república. Em um país em turbulência, ameaçado de um lado pela tomada de poder por radicais islâmicos e de outro pela continuidade do regime militar, a eleição do novo papa copta torna-se um momento crucial não só para a comunidade, como para o Egito inteiro.

ALDO CORDEIRO SAUDA É CIENTISTA POLÍTICO E RESIDE NO CAIRO DESDE A REVOLUÇÃO EGÍPCIA

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