Brotos do asfalto

Descobrimos que a selva de pedra tem mais verde (comestível) do que imaginávamos. A turma de ‘coletores urbanos’ cresce, aqui e fora do Brasil. Nós entramos nessa onda e fomos à rua colher nossa própria salada

02 de junho de 2011 | 17h49

Somos onívoros. A despeito do aspecto e da cor da comida. Vale folha verde, flor amarela, carne vermelha ou branca, uma raiz esbranquiçada, um fungo poroso ou uma formiga cabeçuda com cheiro de citronela. Nosso organismo é capaz de digerir quase tudo (pedra e sapos à parte).

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Será que somos onívoros mesmo? De tanto comprarmos comida "desnaturada", congelada, porcionada e desfigurada no supermercado, a constatação é inversa. Somos cada vez menos caçadores-coletores. Alguém ainda lembra de ter pego fruta no pé em São Paulo? Ou que, até pouco tempo, o homem era um predador voraz?

Tem gente que lembra, sim. Pessoas com conhecimento instrumental de biologia e nutrição e muito discernimento para saber o que pode ir à boca. Rompem a cadeia produtiva que lhes dá - e impõe - diariamente o que já conhecem (quando não o que vende mais), sabores que já provaram, e vão à fonte, à própria natureza, "caçar" seu alimento.

A trupe de caçadores-coletores está crescendo. É a sequência lógica ao locavore (comida local), para onde a seta das tendências gastronômicas parece ter virado na era pós-Adrià. Chefs, que desde a nouvelle cuisine estreitaram laços com os pequenos produtores locais, agora querem eles mesmos botar a mão na terra. São hipernaturalistas.

Figuras como o chef e produtor inglês Hugh Fearnley-Whittingstall (leia à página 6), apelidado de "Hugh Eatsitall" (Hugh Come-de-Tudo), vanguardista sem saber, televisionaram a revolução já nos anos 90. Hoje, movimentos como Omnivore Food Festival e Cook it Raw promovem essa ligação profunda com a terra - e a caça consciente de animais selvagens e frutas silvestres.

Em lugar de destaque está René Redzepi, chef do Noma, o melhor restaurante do mundo segundo a revista Restaurant. É revelador que, ao falar de Redzepi, a imagem imediata seja a de um jovem chef com um ramo de ervas nas mãos, agachado às margens dos lagos próximos a Copenhague. A pesquisa de campo de Redzepi o leva a conhecer sabores que só os muito ligados a sua terra conheciam. É essa natureza bruta que ele põe no prato. Nos EUA, o "predador" Jackson Landers, criador do site Locavore Hunter, dá aulas demonstrativas de como caçar pequenos animais, apoiado pelo Slow Food.

Nada disso é novidade para Neide Rigo, nutricionista e autora do blog Come-se. Ela topou acompanhar a reportagem do Paladar em uma "caçada" urbana pelas ruas de um bairro arborizado de São Paulo. Faltou pouco para roubar fruta, mentruz e capuchinha no quintal do vizinho, porque sim, nós somos onívoros.

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