Buscas por pai e filho duram 24 h

Bombeiros resgataram corpos ontem à tarde no Parque São Rafael

Vitor Hugo Brandalise, O Estadao de S.Paulo

05 Dezembro 2009 | 00h00

Mesmo com efetivo de 44 homens, 17 viaturas e duas retroescavadeiras, o Corpo de Bombeiros da capital levou quase 24 horas para localizar os corpos do técnico em telefonia Geraldo Darci Martins, de 46 anos, e de seu filho, Wesley dos Santos Martins, de 16, mortos anteontem, soterrados por seis toneladas de terra no Parque São Rafael, no extremo leste. A busca começou às 18h30 de anteontem e só terminou às 17h45 de ontem, quando bombeiros encontraram, com a ajuda de cães farejadores, o corpo do pai. Enquanto as retroescavadeiras reviravam o solo, familiares de pai e filho tentavam reconstituir parte de uma história.

"É o Wesley, tenho certeza que é o Wesley", disse, chorando, a tia do menino, a empregada doméstica Rosineide Faria dos Santos, de 36 anos, ao perceber que os bombeiros haviam localizado o primeiro corpo. "Ali ficava a laje e ele adorava aquela laje. Bem possível que estivesse nela quando tudo caiu." Eram 15h10 e o corpo encontrado, 21 horas depois do deslizamento, era mesmo de Wesley. Provavelmente, segundo os bombeiros, o garoto se preparava para tomar banho - seu corpo estava nu. "Então ele deveria estar se preparando para ir à aula, à noite. Pobre menino."

Em seguida, Rosineide voltou à casa vizinha, onde estava Rosicleide Faria, mãe do menino e mulher de Martins, que passou o dia inteiro sedada. Auxiliar de cozinha na Mooca, ela estava no trabalho quando a casa foi destruída, junto com outros dois barracos - um deles, vazio, e, o outro, propriedade de Francisco Brito, de 32 anos, também morto no deslizamento.

Na encosta onde ficavam as casas, agora há apenas um corte de terra nua de 40 metros de altura - tudo despencou em cima da casa dos Martins. "Ali era a cozinha. O Darci tinha acabado de reformar, adorava aquela parte da casa. Talvez até estivesse lá quando aconteceu", disse a um bombeiro o ajudante de montagem Mauri Donizete Martins, irmão de Geraldo, tentando ajudar na localização do corpo do irmão. "Trouxe até outra muda de roupa, para ajudar nas buscas. Mas os bombeiros não deixaram, disseram que está muito perigoso."

Pelos entulhos próximos do corpo de Martins - azulejos, pia e tanque -, encontrado às 17h45, ele realmente estava na área de serviço da casa. "Eu conhecia bem ele, sabia dos gostos, falava com ele todo dia. Agora não quero nem pensar mais nisso. Interessa é que a agonia terminou", disse o irmão.

No Parque São Rafael, a Defesa Civil interditou ontem 123 casas, sob risco de desabamento. O próprio órgão, porém, admite que trata-se de trabalho paliativo. Durante o ano, só outras quatro casas foram vistoriadas na região. "Não temos condição de vistoriar todas as casas em área de risco com nossa estrutura", admitiu o coronel Jair Paca de Lima, coordenador-geral da Defesa Civil na cidade. "Há 1,5 milhão de pessoas morando em áreas de risco e só podemos atender quando nos chamam, ou quando algo acontece. Infelizmente, é assim."

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