Bush: farewell y los sollozos

De lenço na mão e com poema de Neruda, colunista se despede de Bush.

Ivan Lessa, BBC

16 Janeiro 2009 | 07h21

Parece que minha vida é dizer adeus. Como nos 20 Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada, do poeta Pablo Neruda, que li, reli e finalmente comi, durante uma certa fase pós-adolescente.Foi-se Neruda. Foi-se um batalhão de gente. Foi-se um país inteiro, o Brasil, e eu apresentei minhas cordiais e sentidas despedidas, que não foram respondidas. Ir embora, ou ficar olhando na direção geral dos que se vão, é minha sina. Já quase que me acostumei, nesta hora em que eu também estou prestes a pegar o chapéu e embarcar..Hoje, no entanto, despeço-me de George W. Bush citando o Neruda, poeta que ele desconhece (inclusive porque se comunistou logo depois dos poemas que citei), portanto se conhecesse mandaria imediatamente para Guantánamo, mesmo que morto.Tanto faz. A posição é tudo. Lenço agitado na mão, cais do porto, é comigo. Para tal, ao contrário da maior parte das pessoas, digo meu adeus citando trecho de um poema de Neruda, que já foi de enorme importância para mim. Assim caminhava a juventude. "Para que nada nos amarreQue no nos una nada (...)Em cada puerto una mujer esperaLos marineros besan y se van.Una noche se acuestan com la muerte en el lecho del mar (...)"Nesta hora de partir (passei a outro poema do Neruda), lembro e eternizo o que for possível eternizar nas "internets" algumas das frases presidenciais que ganharam o termo de "bushismos", ainda não dicionarizado, nem em nova nem em velha ortografia, mas que um dia o serão. Os dicionários brasileiros revistos são vaquinhas danadas para dar dinheiro.Serás e és lembrado, "Dubya", como lembrados são Carlitos, Buster Keaton e o Gordo e o Magro, com a única diferença que eles, sem armas, de destruição em massa ou pequenas parcelas, nos mataram, e nos matam, de rir. Ainda riremos de Vossa Senhoria. Vai, vai, vai, disse o pássaro. Mas aí estou citando outro poeta, o Eliot, o que só complica as coisas. Para mim, para você, para o eventualíssimo leitor.Segue um punhado de meus "bushismos" prediletos.*"Eu acho que a guerra é um lugar perigoso."*"Vai levar algum tempo para restaurarmos o caos."*"Nossos inimigos estão sempre pensando em maneiras de prejudicar nosso país. Nós também."*"Eu acho que deveríamos aumentar a idade legal para os jovens terem porte de armas."*"Os pobres não são necessariamente assassinos."*"A África é uma nação que sofre de doenças incríveis."*"Um orçamento tem muitas linhas, muitas palavras, muitas páginas, muitos números."*"Há que se admitir: em minhas frases vou onde nenhum homem foi antes."*"Aos maus alunos, eu digo: vocês também podem chegar à presidência de nosso país."*"Uma criança que aprendeu a ler e escrever pode perfeitamente passar num teste de alfabetização."*"Sei que o ser humano e o peixe conseguem conviver em paz."*"Ouvi dizer que há rumores nas internets."*Cato uma ameaça de lágrima no canto do olho, e, como os cafajestes, digo do cais em que vivo: "Valeu, companheiro. Pode deixar que Obama completará sua missão direitinho e garanto que vai acabar encontrando as danadas das Armas de Destruição em Massa do Iraque. Mesmo que isso doa à Sua Senhoria."Confere, Obama?Com o senhor, já que idéias ainda não foram manifestadas, a palavra.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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