Butantã perdeu 24% do quadro de cientistas em 5 anos

Infraestrutura ruim e baixos salários causam evasão de pesquisadores; bióloga tem de trabalhar debaixo de escada

Herton Escobar e Alexandre Gonçalves, O Estado de S.Paulo

20 de maio de 2010 | 00h00

Além dos problemas de infraestrutura, o Instituto Butantã sofre com a evasão de recursos humanos. Nos últimos cinco anos, o número de pesquisadores da instituição caiu de 210 para 160 ? redução de 24% ?, apesar de contratações feitas nesse período, segundo o pesquisador Marcelo De Franco, do Laboratório de Imunogenética, que coordenou o último concurso, em 2009.

Isso, sem contar as aposentadorias. "É evasão mesmo", afirma De Franco, que está no Butantã há 20 anos e ostenta cinco pós-doutorados no currículo. "O problema é que temos uma linha de pesquisa que não pode ser transferida, se não eu já tinha ido para a USP (Universidade de São Paulo)", completa ele, que estuda genes ligados a processos inflamatórios em camundongos.

Em um concurso que foi aberto para professor no Departamento de Zoologia da USP, dois dos oito concorrentes são pesquisadores do Butantã, segundo o zoólogo Rogerio Bertani, pesquisador do Butantã desde 1994. E uma pesquisadora já foi para lá duas semanas atrás.

"Perdemos gente também para a Fiocruz, que tem salários mais competitivos", complementa De Franco. Segundo ele, o salário de pesquisador no Butantã começa em R$ 2.700 (nível 1) e pode chegar a R$ 6.400 (nível 6), enquanto que na Fiocruz o teto é de R$ 14 mil e na Embrapa, R$ 12 mil. "Todos os institutos de pesquisa do Estado estão sofrendo com uma evasão séria de pesquisadores", diz ele.

As goteiras e o elevador quebrado do chamado Prédio Novo do Butantã também não ajudam. A sala da pesquisadora Rute Maria Gonçalves de Andrade, do Laboratório de Imunoquímica, fica embaixo de uma escada ? com teto tão baixo que muitos precisam curvar-se para caminhar lá.

O laboratório conta com microscópios, computadores e outros equipamentos de ponta. Mas Rute ressalta que "foi tudo obtido graças à Fapesp". "A contrapartida em infraestrutura que o Butantã deveria dar é muito precária. Na prática, não dá", diz a cientista, pesquisadora do instituto desde 1994 e membro da diretoria da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

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