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Luiz Horta
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Cabo da Vinífera Esperança

O país é uma enciclopédia de uvas e estilos, parque de diversões vinícola onde é possível beber de espumantes a vinhos de sobremesa fortificados, de ‘franceses’ e ‘italianos’ a ‘portugueses’ e ‘húngaros’ sem se afastar da região do Cabo

Luiz Horta,

22 de abril de 2010 | 15h42

Idílica e europeia. Paisagem domada na vinícola Buitenverwächting (quer dizer ‘além da expectativa’), na região de Constantia, a mais antiga

 

Quando o navegador português Bartolomeu Dias dobrou aquele cabo tempestuoso, em 1488, não poderia imaginar que contornava uma das regiões vinícolas mais promissoras, que só iria florescer no longínquo (para ele) século 20. O Cabo, "ao qual por causa dos perigos e tormentas em o dobrar lhe puseram o nome de Tormentoso, mas el-rei D. João II lhe chamou Cabo da Boa Esperança, por aquilo que prometia para o descobrimento da Índia tão desejada", segundo o historiador português do século 16 João de Barros, acabou sendo mesmo de Esperança, só que de vinhos cada vez melhores.

 

A África do Sul é imensa. Os vinhedos, entretanto, estão reunidos nesse pedaço do extremo sudoeste, que tem condições europeias de cultivo. Poucos países no mundo dos vinhos têm a gama de castas que se deram bem lá.

 

Não há uvas autóctones, lógico. Mas há uma uva local, criada em 1925 por um enólogo da Universidade de Stellenbosch. Chama-se Pinotage e tem, atualmente, mais detratores que amantes - por causa de sua mediocridade, pouca vocação para grandes vinhos e por um traço discutido à exaustão, sem conclusão definitiva: seu frequente e desagradável aroma de borracha queimada.

 

Foi importante na formação de uma identidade nacional para a vinicultura sul-africana. Hoje virou problema. E pouco a pouco vem sendo abandonada. A superfície plantada de Pinotage estacionou e sua substituição por castas mais nobres é irreversível.

 

O país é uma verdadeira enciclopédia de variedades do mundo. Diga uma, que terá. Sangiovese? Tem. Palomino? Tem e resulta num tipo de jerez despudoradamente chamado Sherry. Riesling? Claro. Todas as grandes uvas europeias. Todos os estilos de vinhos. A África do Sul tem um Rhône, uma Bordeaux, uma Califórnia, a região do Porto e até a Hungria, em estilos. Sem falar na Chenin Blanc e na Sauvignon Blanc, excelentes e em maior quantidade que no Loire.

 

O Atlas Mundial do Vinho classifica o clima como "mediterrâneo quase perfeito". Apesar da história antiga, os vinhos sul-africanos ainda estão em plena mutação. As estatísticas de uvas plantadas sendo mudadas todo tempo (Merlot crescendo, Semillon perdendo terreno para a Sauvignon Blanc, eis a informação mais recente, do Wine Report 2009) e novos terroirs sendo explorados.

 

Traços de distinção de origem, com o nome dos vinhedos nos rótulos, são recentes no país. E o sistema de classificação por regiões está em processo de consolidação. Certamente o produto da África do Sul é bem interessante e rico e vai ser um dos atores de destaque no mundo dos vinhos nas próximas décadas.

 

As principais regiões, com solos e climas marcados e diferenciados, estão na área do Cabo. Os vinhedos fora dali ainda são produto marginal. Entre as sub-regiões mais notáveis está Constantia, a mais antiga e hoje praticamente um bairro da Cidade do Cabo. Tem maior vocação para as uvas brancas. A Sauvignon Blanc é a mais plantada.

 

Já Stellenbosch é a capital vinífera do país, principal centro de formação de enólogos e sede do Instituto Sul-africano de Pesquisas Enológicas. As uvas mais afamadas nos seus inúmeros terroirs são as tintas. Paarl, que já foi a mais importante, hoje perdeu um pouco do brilho, embora abrigue o vale de Franschhoek, o rincão afrancesado do país. E Robertson, mais quente, embora alta e seca, é berço da Chardonnay mais famosa.

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