Cachoeira se cala e CPI encerra depoimento

O empresário Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, se recusou nesta terça-feira a responder perguntas durante as mais de duas horas em que esteve na CPI que investiga suas relações com agentes públicos e privados, e a sessão acabou sendo encerrada pelos membros da comissão.

REUTERS

22 Maio 2012 | 18h14

"Estou aqui como manda a lei para responder o que for necessário e, constitucionalmente, eu fui advertido pelos advogados para não dizer nada", afirmou Cachoeira logo no início da sessão. O empresário está preso há três meses acusado de chefiar uma rede de jogos ilegais.

Sentado ao lado de seu advogado, o ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos, Cachoeira se recusou a responder as perguntas feitas, alegando que só colaboraria com a CPI após prestar depoimento em um processo ao qual respondem na Justiça de Goiás.

Com ar irônico, ele chegou a lembrar que seus advogados pediram que o depoimento fosse marcado para outra data, mas os membros da CPI insistiram em convocá-lo para esta terça-feira.

"Eu não falarei nada aqui, somente depois da audiência que nós vamos ter no juiz que, se por ventura achar que eu deva contribuir, pode me chamar que eu virei para falar", disse. "Quem forçou isto (o depoimento) foram os senhores."

Os parlamentares chegaram a propor que a sessão fosse fechada para que o empresário respondesse às perguntas, mas Cachoeira manteve sua posição de seguir a orientação de seus advogados.

Cachoeira deve ser novamente reconvocado para prestar esclarecimentos à CPI, em uma sessão no mês de junho, após a audiência da Justiça de Goiás que vai colher o depoimento dele entre os dias 31 de maio e 1º de junho no processo que corre em segredo de Justiça.

A expectativa do relator da CPI mista Odair Cunha (PT-MG) é que, após a audiência, Cachoeira responda aos questionamentos da comissão.

"Não se pode esperar de um chefe de quadrilha, um bandido bem informado, bem orientado pelos seus advogados, um depoimento que colabore com uma investigação que o incrimina", disse o relator a jornalistas após o fim da sessão.

"A expectativa é de que, como ele mesmo disse, numa próxima oitiva ele possa colaborar com o nosso trabalho", acrescentou.

Advogado de Cachoeira, Thomaz Bastos, no entanto, disse a jornalistas após o depoimento que, para que Cachoeira fale à CPI, outras duas etapas precisam ser vencidas, além a da Justiça de Goiás.

O ex-ministro disse que a defesa ainda não teve tempo de analisar todos os documentos das operações Vegas e Monte Carlo, da Polícia Federal, que são matéria-prima da CPI, e que seu cliente deve esperar uma decisão sobre um pedido de habeas corpus em que se alega que as provas contra Cachoeira foram coletadas em desacordo com a lei.

"Ele vai contribuir com a CPI desde que preenchidos os requisitos indispensáveis a que ele fale", disse Thomaz Bastos, que foi incisivo ao negar a existência de impedimento para que defenda Cachoeira, por conta de ter sido ministro da Justiça durante o governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

"Eu passei 45 anos da minha vida como advogado. Fiquei quatro anos no Ministério da Justiça. Faz 5 anos que saí de lá. Então eu não tenho nenhum impedimento, e você (dirigindo-se ao autor da pergunta) não pode pré-julgar o meu cliente. Desculpa, mas ele só vai ser considerado culpado depois que ele for condenado por um juiz."

"PAPEL RIDÍCULO"

Cachoeira, preso desde fevereiro acusado de comandar uma rede de jogos ilegais, motivou a CPI mista instalada no mês passado e seu depoimento estava sendo aguardado desde a semana passada.

O empresário deveria ter ido à CPI no dia 15, mas o depoimento foi suspenso após decisão liminar do Supremo Tribunal Federal (STF), que atendeu a um pedido da defesa que argumentou não ter tido acesso ao material sobre Cachoeira.

O relator da CPI abriu mão nesta terça-feira de interrogar Cachoeira, alegando que, diante da negativa de Cachoeira em responder, não daria munição à defesa do empresário.

Apesar de vários parlamentares continuarem fazendo perguntas, alguns membros da CPI passaram a defender o fim da sessão, e alguns se irritaram com a situação.

"Estamos fazendo um papel ridículo para um cidadão que está nos tratando como idiotas. Está aqui como uma múmia", reclamou irritada a senadora Kátia Abreu (PSD-TO) durante a sessão.

(Reportagem de Jeferson Ribeiro, com reportagem adicional de Maria Carolina Marcello)

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