'Cada escola deve ter uma meta desafiadora, mas possível'

Economista americano fala sobre programa de responsabilização escolar implementado nos Estados Unidos

Entrevista com

OCIMARA BALMANT, O Estado de S.Paulo

17 Outubro 2011 | 03h03

"Recomendo que as escolas sejam avaliadas com base na evolução do aluno e não apenas nos níveis de proficiência", diz o economista americano David Figlio. Especialista em políticas de responsabilização de escolas, o pesquisador orientou Estados americanos e outras nações no desenho, implementação e avaliação de políticas educacionais. Figlio fala sobre o tema hoje em um seminário no Rio realizado pela Fundação Itaú Social.

Como é o programa de responsabilização escolar dos EUA?

O governo exige que todos os Estados testem anualmente as crianças do 3.º ao 8.º ano do ensino fundamental em compreensão de texto e matemática e pelo menos uma vez no ensino médio. Os resultados são apresentados em sua totalidade, mas também para subgrupos raciais ou étnicos, alunos desamparados etc. Os Estados determinam a nota mínima e as escolas devem atingir porcentagem de alunos proficientes em cada subgrupo. As que insistentemente deixam de atingir os objetivos sofrem sanções, que vão do corte de recursos até a ameaça de fechamento.

Quais os caminhos para melhorar o rendimentos dos alunos?

É uma pergunta difícil. Há poucos estudos que oferecem uma prova definitiva. Uma coisa que sabemos é que professores excelentes fazem uma grande diferença, mas não temos tido sucesso em definir formas consistentes de treinar os docentes ou em identificar quem será excelente antes de começar a lecionar. Por outro lado, as escolas conseguem estimular o desempenho dos alunos quando eles são desafiados. Fica claro, então, que há políticas e práticas que podem funcionar. Minha pesquisa atual envolve a observação do que as melhores escolas têm feito e verificar se as que fazem as mesmas coisas em diferentes contextos conseguem resultados diferentes.

No Brasil, as disparidades sociais são muito grandes...

Esse é um problema comum ao Brasil e aos EUA. Nos dois países também há uma forte relação entre os resultados dos alunos e a riqueza do corpo discente. Mas é possível criar um sistema de responsabilização que considere isso. Recomendo que as escolas sejam avaliadas com base na evolução do aluno e não apenas nos níveis de proficiência, que cada colégio tenha um objetivo que seja desafiador e, ao mesmo tempo, possível. A meta não deve ser arbitrária ou confusa.

Quais os cuidados na implementação do programa?

É importante tomar cuidado porque os sistemas baseados em níveis de proficiência são muito fáceis de manipular e há muitos exemplos de escolas que obtêm boas pontuações de forma artificial.

O Brasil ainda não tem um currículo nacional único. Isso prejudica a avaliação?

Os EUA também não têm. Isso não é necessariamente um problema, mas é claro que um currículo nacional único ajuda a alcançar bons resultados. Recomendo que o Brasil se esforce para evitar, por exemplo, que sejam adotados padrões diferentes de acordo com o Estado, como ocorre nos EUA.

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