Ca'd'Oro, 1953-2009: fim de um símbolo

O primeiro hotel cinco estrelas de São Paulo fecha suas portas

Edison Veiga e Maiara Camargo, O Estadao de S.Paulo

21 Dezembro 2009 | 00h00

Símbolo do charme de um centro paulistano que não existe mais, o Grand Hotel Ca"d"Oro, primeiro cinco estrelas de São Paulo, fechou suas portas ontem, quando as chaves dos dois últimos quartos ocupados foram entregues em um check-out definitivo. "O importante é que encerramos de cabeça erguida, atendendo aos hóspedes sem o serviço perder qualidade", afirma o recepcionista Ricardo Noçais, de 64 anos, 43 deles a serviço do hotel.

Um dos últimos hóspedes, o empresário italiano Marco Crippa saiu no sábado. Ele, que visita a capital paulista quatro vezes por ano desde 1992, só ficava no Ca"d"Oro. "Tiraram minha casa de São Paulo", lamenta. Na noite de sexta, foi servido o último jantar do restaurante. Dos 120 lugares do salão, apenas 22 estiveram ocupados.

Ao menos oficialmente, o Ca"d"Oro será reaberto nos próximos anos. "Estamos procurando investidores para uma reforma", diz o proprietário Aurélio Guzzoni. "Iremos funcionar para a Copa de 2014." O otimismo não é compartilhado pelos funcionários, que já espalham seus currículos. "É complicado ser dispensado, mas faz parte da vida", conforma-se o auxiliar de garçom Ailton Oliveira.

ILUSTRES HÓSPEDES

Em suas décadas áureas, o hotel - e o restaurante contíguo - era refinado ponto de encontro de autoridades, intelectuais e artistas. O pintor Di Cavalcanti (1987-1976) chegou a morar ali durante alguns meses. O poeta Vinicius de Moraes (1913-1980) e o escritor norte-americano Gore Vidal também eram figurinhas fáceis pelos corredores.

Entre os autógrafos orgulhosamente colecionados pela administração do hotel - conseguidos quando os ilustres ocupavam uma suíte ou uma mesa do restaurante -, estão nomes como o do poeta chileno Pablo Neruda (1904-1973), do cientista norte-americano Linus Pauling (1901-1994), dos escritores Jorge Amado (1912-2001) e Rachel de Queiroz (1910-2003), do cantor Roberto Carlos, do apresentador de televisão e empresário Silvio Santos e do ex-jogador de futebol Pelé. Além de políticos, como o estadista francês François Mitterrand (1916-1996), o ex-governador paulista Mário Covas (1930-2001), o rei espanhol Juan Carlos I e os ex-presidentes brasileiros Ernesto Geisel (1907-1996) e Jânio Quadros (1917-1992).

Quando se submeteu a tratamento médico em São Paulo, o então presidente João Batista Figueiredo (1918-1999) chegou a despachar de uma suíte no Ca"d"Oro. Em 1991, o tenor Luciano Pavarotti (1935-2007) ocupou um dos luxuosos quartos - que foi totalmente reformado para recebê-lo.

A história do empreendimento começou em Bérgamo, na Itália. Em um dos hotéis da família, Fabrizio Guzzoni (1920-2005) conheceu uma brasileira, com quem viria a se casar. Já em São Paulo, inaugurou o Ca"d"Oro - primeiro como restaurante, em 1953, na Rua Barão de Itapetininga. Três anos depois, na Rua Basílio da Gama, nascia o hotel. Poucos anos mais tarde, com 300 apartamentos, Guzzoni instalava seu negócio no endereço definitivo, na Rua Augusta.

Para se ter uma ideia de como o Ca"d"Oro prezava a elegância, até 1962 era proibida, em seu restaurante, a entrada de homens sem gravata. Havia até uma placa, oficializando a norma. Depois, a regra foi abrandada - era exigido apenas o paletó, embora dificilmente algum frequentador dispensasse a gravata. A administração mantinha paletós para emprestar a algum desavisado.

Outros Que Se Foram

Crowne Plaza (Rua Frei Caneca): fechado em 2008, foi vendido para o Ministério Público Federal

Hilton (Avenida Ipiranga): desocupado em 2005, o prédio abriga gabinetes do Tribunal de Justiça

Othon Classic (Rua Líbero Badaró): fechado em 2008, está vazio desde então

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