Café é coisa de mulherzinha

Café é coisa de mulherzinha

Elas começaram timidamente, usando mãos delicadas para colher os grãos. Mas o panorama está mudando

Ensei Neto/Especial para o 'Estado',

07 Março 2012 | 20h09

A versão romanceada da história do café no Brasil atribui a uma mulher o impulso inicial da produção cafeeira nacional: Madame D’Orvilliers. Ela era mulher do governador de Caiena, capital da Guiana Francesa, e teve um affair com um militar brasileiro que andou por lá, o sargento-mor Francisco de Mello Palheta. Durante um banquete, madame ofereceu ao militar um buquê com mudas de café - as plantas se tornaram ancestrais da indústria cafeeira nacional.

Por muito tempo foi apenas essa a relação entre mulheres e café no Brasil. No entanto, mais recentemente a figura feminina vem conquistando posição de destaque em diferentes etapas da produção da bebida.

Elas começaram timidamente, usando mãos delicadas para colher os grãos, entraram no terreiro para cuidar da secagem, aos poucos foram se envolvendo com a torra e agora já há mulheres pioneiras trabalhando no controle de qualidade dos grãos, território masculino por tradição. Até dez anos atrás, tampouco havia provadoras de café. O panorama está em transformação. A participação das mulheres está crescendo no setor e elas já estão se organizando em grupos de pesquisas, seminários e associações.

Em outubro do ano passado, mulheres cafeicultoras se reuniram numa entidade batizada de União Internacional das Mulheres do Café (IWCA, em inglês), com sede nos Estados Unidos. A presidente da Seção Brasil é Josiane Cotrim Macieira, jornalista que cresceu em Manhumirim, na Zona da Mata mineira. Josiane viajou o mundo acompanhando o marido diplomata e foi na Nicarágua que (re)conheceu a importância do papel das mulheres na cafeicultura. “Elas participam de toda a cadeia produtiva, mas raramente têm voz”, diz.

Nesta página você vai conhecer algumas mulheres que se destacam no mundo do café.

Ainda não dá para dizer se há diferenças de sabor entre cafés produzidos por homens e por mulheres. Mas, no geral, o que se percebe é que nas fazendas conduzidas por mulheres os resultados têm sido mais consistentes. E a consistência é condição básica para a produção de um café especial.

Helena Gomes

Gerente de terreiro

Quem manda no terreiro da Fazenda Chapadão de Ferro, em Patrocínio, Minas Gerais, é uma mulher. Helena Gomes assumiu a função de ‘gerente de terreiro’ há pouco mais de cinco anos e, desde então, o café produzido na pequena propriedade localizada no buraco de um vulcão extinto, começou a marcar presença entre os finalistas em concursos. Foi finalista do concurso da Illy, do Cup of Excellence, vencedor do concurso da região do Cerrado e finalista na prova mineira.

É Helena quem seca do primeiro ao último grão, a cada safra, um trabalho que leva aproximadamente três meses e meio. Calçando sandálias bem finas, vai esparramando o café com paciência, pisando com cuidado para não machucar os grãos. Trabalha com a ajuda de duas mulheres, que seguem seus passos, sem colocar peso sobre os frutos. Homem só entra ali de trator, para transportar o café já seco. Na hora do descanso, as três mulheres sentam-se juntas para conversar fiado e saborear o bolo caseiro que Helena assa toda a manhã.

Quem vê a moça tímida e de impressionante simplicidade custa a acreditar que ela tenha olfato de tal forma apurado que consegue identificar pelo aroma o ponto de secagem do grão. Nota mudanças mínimas e vai acompanhando a redução de umidade até perceber que está seco.

Cecilia Sanada

Barista

Atual campeã paulista, a barista Cecília Sanada foi parar no mundo dos cafés por engano. Ex-cabeleireira, queria ser bartender quando ouviu dizer que estavam precisando de baristas no Octavio Café. Sem saber direito a diferença entre uma coisa e outra, candidatou-se. Cecília preenchia, porém, o quesito mais importante: não tinha nenhuma experiência com café. E foi aceita.

Logo no primeiro dia de trabalho ficou apaixonada. A jornada começou na fazenda da marca, em Pedregulho. Viu a colheita, o manejo, o beneficiamento. Ao voltar a São Paulo, estava decidida a aprofundar o conhecimento sobre a bebida. Acabou se destacando: desde junho, atua como gerente de qualidade do café da marca.

Cecília diz que não sente nenhuma dificuldade pelo fato de ser mulher. “Ao contrário, aqui no Brasil, mulheres são maioria entre os campeões nos concursos de baristas, justamente o oposto do que acontece no exterior”, avalia.

Ana Cláudia Vieira Martins

Classificadora de qualidade de café

Na primeira vez em que Ana Cláudia Vieira Martins entrou na sala de degustação para provar café os colegas se aglomeraram na porta. Afinal, não era todo dia que uma secretária sentava-se à mesa com degustadores experientes na Unicafé, uma das maiores exportadoras de café do País.

Passaram-se 18 anos e Ana Cláudia é a única profissional da empresa habilitada como classificadora de qualidade de cafés com certificado Q Grader - Quality Grader. Foi diplomada em fevereiro deste ano. Mas ainda não conseguiu entrar para o time de provadores da empresa formado por seis profissionais, todos homens. Exerce a função de assistente de diretoria.

“Café sempre foi coisa de homem, então as pessoas ainda têm muito receio quando veem uma mulher provando a bebida”, diz.

Ana Cláudia não esconde de ninguém o sonho de ser provadora de cafés especiais. Enquanto não consegue realizá-lo, continua estudando, não perde a chance de ajudar na classificação de cafés e até já se aventurou a acompanhar a torra. Está estudando japonês e chinês para lidar melhor com os compradores de café.

Evanete Peres Domingues

Produtora de café

Ela trocou o salto alto pela botina e acabou virando uma espécie de baronesa do café. Evanete Peres Domingues é a mulher à frente da Fazenda Paraíso, em Araguari, no Cerrado mineiro. Mas não entrou no ramo por opção. Teve de largar uma carreira bem-sucedida na área de marketing para assumir a propriedade a pedido de seu pai.

Não possuía nenhum conhecimento da área e o jeito foi estudar por conta própria. Dedicou-se a conhecer todos os aspectos da produção. Resultado: acabou fazendo uma revolução na fazenda, do cultivo ao controle de qualidade do produto final. Seu trabalho provocou tamanho salto de produtividade - e qualidade - que a fazenda virou referência.

O café da Fazenda Paraíso está entre os primeiros a receber a certificação de sustentabilidade do Rain Forest.

Evanete também se envolveu com a cooperativa local e ajudou a estruturar um evento que acabou se tornando o maior seminário de cafeicultura irrigada do mundo.

A mulher que fez muito barão de café torcer o nariz gosta de dizer que seus dias se dividem entre o salto alto e a botina suja.

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