Calcanhar de Aquiles europeu

Um grande dia, ontem, em Bruxelas. Os 27 chefes de Estado e governo da União Europeia elegeram um presidente da Europa, não um líder provisório, quase fantasmagórico, como tem ocorrido até hoje, mas um dirigente de verdade, para um mandato de dois anos e meio e com reais poderes.

Gilles Lapouge, O Estadao de S.Paulo

20 de novembro de 2009 | 00h00

Certa vez, o ex-secretário de Estado americano Henry Kissinger Disse cruelmente: "Europa. Tudo bem, mas qual é o número de telefone?" A lição foi entendida. Mas não é tão simples encontrar um número de telefone comum num conjunto de 27 nações, que inclui desde a poderosa Alemanha à minúscula Chipre, a arcaica Grécia e a moderna Holanda. Como nomear alguém capaz de conduzir essa lata velha empoeirada, desordenada e tão desarmônica? Qual seria o retrato falado desse presidenciável?

É difícil achar essa pérola. São raros os europeus com capacidade para isso. Nicolas Sarkozy e Angela Merkel estão à frente de seus governos, chefiando seu próprio país. Antes da eleição de ontem, um único homem era tido como capaz para isso: o sedutor e imponente inglês Tony Blair, ex-premiê trabalhista.

Mas Blair tinha uma desvantagem. Quando foi premiê, ele referendou a absurda guerra do Iraque e se comportou como "cãozinho de estimação" de George W. Bush. E não é só. Blair é brilhante demais. Um homem da sua estatura iria esmagar todos os chefes dos pequenos países europeus.

Portanto, vamos ao segundo retrato falado: o de um homem apagado, gentil, capaz de agradar tanto um letão como um italiano, um dinamarquês ou um português. Um homem sem sabor, sem odor e sem cor.

Desse jeito, o problema fica mais simples, porque figuras insossas é que não faltam nos 27 países europeus. Um deles surgiu com força: o primeiro-ministro da Bélgica, o democrata-cristão Herman Van Rompuy. Todo o mundo fala maravilhas sobre seu bom senso, sua habilidade e, o que seria um trunfo, não é alguém que se expõe muito. Não tem nenhum carisma.

Na verdade, esse belga é um flamengo. Ora, a Bélgica está dividida entre dois clãs: os valões (franceses) e os flamengos. E os valões podem ser um problema para a presidência da Europa exercida por um belga flamengo.

Nada representa melhor o calcanhar de Aquiles da enorme estrutura europeia. Todo o procedimento com vistas a dotar os 27 países de um único presidente corre o risco de ser bloqueado, porque num desses países, a Bélgica, duas tribos, dos flamengos e dos valões, preferem continuar uma disputa de mais de mil anos.

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