Campanha eleitoral não se reflete nas ruas de Moscou

Russos irão às urnas no domingo para eleger o sucessor de Vladimir Putin.

Márcia Freitas, BBC

28 Fevereiro 2008 | 08h45

Andando pelas ruas de Moscou, é difícil acreditar que faltam apenas cinco dias para as próximas eleições presidenciais. Em muitas cidades brasileiras, e em muitos lugares ao redor do mundo, os rostos dos candidatos estariam estampados em todo lugar, mas não aqui. Perto do Kremlin, é possível ver um dos poucos exemplos de propaganda eleitoral - um cartaz gigante mostrando o atual presidente, Vladimir Putin, e o candidato do partido governista Rússia Unida - e favorito para vencer o pleito de domingo - Dmitry Medvedev.Se as pesquisas de opinião estiverem corretas, Medvedev pode obter algo entre 58% e 80% dos votos. Os principais concorrentes - Gennady Zyuganov, do Partido Comunista, e Vladimir Zhirinovsky, do Partido Liberal Democrático, devem ganhar em torno de 10%. A chamada oposição liberal não está representada no pleito."Não há propaganda nas ruas porque não há necessidade de fazer propaganda. Medvedev irá vencer do mesmo jeito e a campanha dos outros candidatos é limitada porque eles também não querem gastar muito, porque sabem que vão perder", afirma Rodrigo Fernandez, correspondente do jornal espanhol El País na Rússia há quase 20 anos e residente no país há mais de 40. O sinal mais evidente das eleições nas ruas da capital são cartazes, bandeiras, faixas e até mesmo lembretes no bilhete do metrô convocando a população a ir às urnas neste domingo.CríticasOs debates transmitidos pela televisão são realizados esporadicamente, mas reúnem apenas os outros três candidatos - Zyuganov, Zhirinovsky e Andrei Bogdanov, do Partido Democrático. Medvedev preferiu se ausentar, mas a oposição afirma que os dois principais canais de TV, controlados pelo Estado, garantem visibilidade suficiente ao candidato governista, que ocupa atualmente o cargo de vice-primeiro-ministro."Eu gostaria que houvesse mais debates entre Medvedev, Zhirinovsky e Zyuganov. Mostraria um pouco mais (sobre os candidatos). É possível que um número ainda maior de pessoas acabasse votando em Medvedev, talvez menos, quem sabe? Faria com que as eleições fossem um pouco mais democráticas, apesar de que já são democráticas", diz o aposentado Ivan Polyanskih, de 77 anos.Outra crítica feita ao processo eleitoral é que as leis teriam dificultado a participação de políticos independentes. Para poder participar, os candidatos tinham de ser indicados por um partido no Parlamento ou coletar a assinatura de 2 milhões de eleitores.Um dos representantes da oposição liberal, o ex-primeiro-ministro Mikhail Kasyanov, teve a candidatura cancelada depois que as autoridades eleitorais disseram que parte das assinaturas coletadas havia sido falsificada. Para Kasyanov, a decisão foi política, mas a Comissão Eleitoral insiste que agiu dentro da lei. Eleição ou sucessão?"As eleições de domingo não serão, na verdade, eleições, mas simplesmente a formalização de uma decisão já tomada pelo presidente Vladimir Putin, que elegeu como seu sucessor o atual vice-primeiro-ministro", afirma Fernandez. Já o analista internacional Anatoli Sosnovski afirma que é errado analisar o atual quadro tendo em mente os padrões democráticos ocidentais."Eu diria que a situação na Rússia pode ser exótica para muitos observadores, inclusive para muitos na América Latina", afirma. "É uma época de transição e, na Rússia, que foi durante séculos um país sem partidos ou monopartidário, seria um pouco superficial esperar que passe de um momento para o outro para uma democracia representativa parlamentar como a britânica, por exemplo", afirma.ObservadoresA credibilidade da campanha eleitoral russa foi colocada em dúvida depois que a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), um órgão internacional que fiscaliza eleições, anunciou no início de fevereiro que não iria enviar representantes para acompanhar o pleito.A OSCE afirmou que as restrições impostas pelo governo russo em relação ao número de observadores enviados e ao período em que eles poderiam permanecer no país iriam impedir que o trabalho fosse feito de forma adequada. Os observadores geralmente chegam ao país em que vão monitorar as eleições dois meses antes do dia votação, para que possam observar a inscrição dos candidatos, a campanha eleitoral, a cobertura da mídia e a votação em si. A Rússia queria que eles chegassem, no máximo, uma semana antes. De fato, os primeiros observadores internacionais começaram a chegar ao país nesta terça-feira e, segundo a Comissão Eleitoral russa, a comitiva será composta por 300 especialistas.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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