Candidatos nos EUA 'não devem propor mudança em política com Cuba'

Em pleno ano eleitoral, analistas dizem que não se deve esperar mudanças.

Bruno Garcez, BBC

20 Fevereiro 2008 | 03h05

Em pleno ano eleitoral, não se deve esperar mudanças em relação à política dos Estados Unidos para Cuba nem promessas nesse sentido por parte dos candidatos à Presidência, segundo analistas americanos ouvidos pela BBC Brasil.''Seria bom se um dos candidatos fizesse algum movimento inicial, e (o senador Barack) Obama parece ser o mais disposto a dar esse passo, o de permitir viagens a Cuba'', afirma Vicki Huddleston, especialista em América Latina da Brookings Institution, de Washington, e ex-chefe da seção de interesses dos Estados Unidos em Cuba.Entre os atuais candidatos à Presidência, Obama foi o único que se disse disposto a manter encontros incondicionais com Fidel Castro e defendeu ainda reduzir as restrições de viagens a Cuba.O governo do presidente George W. Bush adotou políticas que só permitem a cidadãos de origem cubana residentes nos Estados Unidos viajarem a Cuba uma vez a cada três anos e que impedem cidadãos americanos de viajarem ao país caribenho. Fim do embargoQuando candidato ao senado, em 2004, Obama afirmou que consideraria pôr fim ao embargo econômico contra Cuba, mesmo sem mudança no governo do país, uma política que encontra certa receptividade em Estados americanos do meio-oeste com forte produção agrícola, como o Illinois, por onde ele é senador.Mas nesta terça-feira, o senador divulgou um comunicado no qual adota uma posição um pouco menos aberta ao fim do bloqueio econômico. Ele afirmou que o governo americano deve estar preparado para normalizar relações com Cuba e afrouxar o embargo somente ''se o governo cubano fizer mudanças democráticas significativas''.De acordo com Vicki Huddleston, Hillary Clinton parece querer deixar Cuba de fora da campanha presidencial. ''Mas essa não parece ser uma posição lógica, uma vez que seu marido (o ex-presidente Bill Clinton) adotou políticas que ajudaram a promover mudanças em Cuba, com o direito de se viajar para lá e permitir um maior fluxo de dinheiro para o país. Foram reformas que estavam ajudando os movimentos de direitos humanos em Cuba. Espero que Hillary reveja sua posição, se chegar à presidência'', comenta Huddleston. A senadora democrata Hillary Clinton votou a favor de reduzir as restrições de se viajar a Cuba em duas ocasiões, em 2003 e em 2005. Nesta terça, ela afirmou, em uma mensagem endereçada ao novo governo cubano, que os Estados Unidos estarão prontos para aceitar Cuba, desde que ''vocês promovam reformas rumo ao caminho da democracia, com mudanças reais e significativas''.Linha governistaJohn McCain manifestou opiniões que pouco diferem da linha defendida pelo governo do presidente George W. Bush. Ele é a favor do embargo nos termos atuais. Ex-prisioneiro de guerra durante o conflito no Vietnã, o senador já acusou representantes de Cuba de terem agido como torturadores durante o conflito no Sudeste Asiático.Wayne Smith é um pesquisador do Center for International Policy, de Washington, diretor do programa cubano da instituição e ex-chefe da seção de interesses em Havana, entre 1979 e 1982. Ele também acredita que, entre os candidatos na corrida presidencial americana, Obama é o único mais disposto a estender a mão à liderança de Cuba, mas acredita que ''Hillary poderá mudar de posição, e quem sabe até McCain''. ''Talvez até mesmo ele mude de idéia. McCain perdoou os vietnamitas e defendeu a normalização de relações com o Vietnã. Mas ninguém deve esperar mudanças drásticas de parte de nenhum dos candidatos.''Lento despertarTom Miller, autor do livro Trading with the Enemy: A Yankee Travels Through Castro`s Cuba, diz que Washington não promove reformas em suas políticas para com Cuba há 50 anos e que ''alguém precisa bater à porta do Departamento de Estado e acordá-los''.O autor acredita que poderá haver pressão por parte de alguns Estados com forte produção agrícola para reduzir as restrições no comércio com a ilha caribenha, mas que não se deve esperar muito por parte dos candidatos. ''Obama pediu o fim da restrição ao direito de viajar, mas é pouco provável que alguém vá muito além disso, porque Cuba é um tema quente em um ano eleitoral'', afirma o escritor. A jornalista Mary O'Grady, autora da seção The Americas, do Wall Street Journal, endossa a opinião de Miller.''Estamos em um ano eleitoral, e a comunidade cubana exilada na Flórida ainda é muito poderosa neste país. E eles se opõem ao fim do embargo. Defender uma posição contrária a isso, teria um efeito muito forte sobre ambos os partidos, ainda mais que a Flórida é um Estado muito importante nas eleições."BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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