Candidatos tentam domar campanha na era do YouTube

Exemplos mostram que rede pode salvar ou afundar candidatos.

BBC Brasil, BBC

02 de janeiro de 2008 | 17h35

Nenhuma pesquisa de intenção de voto indica que Ron Paul, um dos pré-candidatos à Casa Branca, irá sobreviver às primárias e colocar seu nome no alto da chapa do Partido Republicano para as eleições de novembro. Analistas também são unânimes em acreditar que o deputado não tem a menor chance perto de bichos-papões de arrecadação de fundos como os também republicanos Rudy Giuliani ou Mitt Romney. No entanto, numa era em que a internet se tornou um elemento tão fundamental nas campanhas, Ron Paul já conseguiu pelo menos um prêmio de consolação: caiu no gosto dos internautas e provavelmente seria um candidato competitivo, caso tudo se decidisse com um clique do mouse.Em novembro, simpatizantes do candidato organizaram um evento online para arrecadação de fundos para a campanha, e acabaram angariando mais de US$ 4 milhões, o que, na época, foi o maior montante arrecadado por um pré-candidato democrata em 24 horas. Não é à toa que todos os pré-candidatos então presentes como nunca na rede mundial de computadores. Mas a internet é imprevisível e tanto pode garantir uma boa vantagem como também acabar de vez com as expectativas de qualquer aspirante a sucessor de George W. Bush.Howard DeanHoward Dean foi o primeiro pré-candidato na história dos Estados Unidos que aproveitou a rede para sair na frente na captação de verbas de campanha, durante as eleições presidencias de 2004.O democrata baseou o financiamento de sua campanha principalmente em pequenas doações obtidas de simpatizantes pela internet, diferentemente de outros candidatos, que apostavam nos tradicionais eventos de arrecadação, os chamados fundraisers.A estratégia deu certo, mas Dean sofreu um duro golpe na primeira etapa da corrida das primárias, o caucus de Iowa. Ficou em terceiro lugar e, na seqüência, fez um discurso (extremamente) exaltado para os simpatizantes, gritando, com o rosto vermelho. Foi o episódio que selou sua derrota.Agora, quatro anos depois, os candidatos abraçaram a internet e a usam ostensivamente para obter financiamento. Basta visitar seus sites para perceber isso. Se nos anos 60 a novidade foram os debates presidenciais pela TV, e em 2004, foram os blogs e o uso da internet para arrecadar fundos à la Howard Dean, agora a grande novidade é a força do vídeo pela internet e as implicações do seu uso como arma política. Guerra dos vídeosNo ano passado, o senador republicano George Allen tentava a reeleição no Estado da Virgínia e, em dado momento da campanha, usou um termo racista para xingar um membro da oposição que o andava infernizando com uma câmera de vídeo.O momento em que o congressista perdeu as estribeiras foi parar no YouTube, e Allen perdeu a eleição. Isso mostra como os pré-candidatos à Casa Branca têm motivos para preocupação. Falando ao The New York Times, Mitt Romney disse que "concorrendo à Presidência na era do YouTube, você percebe que tem que ter muito bom senso em relação ao que você fala." Mas não são só maus momentos gravados em vídeo que podem influenciar uma campanha. No início deste ano, um internauta colocou no site um vídeo que teve grande repercussão, intitulado Vote Different ("Vote diferente", em tradução livre) aparentemente inspirado no cenário do livro 1984, de George Orwell - que se passa em um país dominado por um ditador que controla tudo e todos.As imagens mostram declarações de Hillary Clinton exibidas em monitores a uma platéia de espectadores apáticos, com as cabeças raspadas, que parecem acordam de um transe quando uma mulher atira um martelo contra um monitor. No final, aparece uma mensagem com o endereço eletrônico da campanha de Barack Obama.O autor do vídeo, Philip de Vellis, depois foi a público - ele disse que não tinha nada a ver com a campanha e que decidiu fazer o vídeo por livre e espontânea vontade. O YouTube está cheio de vídeos sobre os pré-candidatos, feitos ou colocados online por pessoas como De Vellis. Alguns são bem produzidos, outros, apenas gravações dos candidatos em momentos constrangedores ou inspirados. Com tamanho potencial político, não tardou para que a internet tivesse o seu primeiro debate presidencial: em julho e setembro, o YouTube colocou no ar os pré-candidatos respondendo perguntas em vídeo, enviadas pelos internautas. O que não está claro é até que ponto tudo isso influencia votos ou não.ImprevisívelEm um artigo no The New York Times, Matt Bai, autor do livro The Argument: Billionaries, Bloggers and the Battle to Remake Democratic Politics, resumiu a questão: "A única coisa nós podemos saber razoavelmente com certeza sobre a campanha eleitoral é que será profundamente afetada por atores externos que não podemos saber quais são ainda, eleitores sentados em porões e cafés sonhando sobre sua própria forma de auto-expressão".O que é certo é que a internet mudou a forma de diálogo entre o candidato e o eleitor. A transparência é muito maior, para o bem e para o mal, e a imagem do candidato pode ser usada de forma livre, de acordo com a criatividade do internauta.O candidato também pode ser incansavelmente estudado, e essa transparência, de novo, pode ser um problema ou não."Bloggers políticos podem ser muito ativos e agressivamente voltam e checam coisas que um político disse", disse Stephen Ward, especialista em democracia pela internet do Instituto de Internet de Oxford. "Uma campanha online significa que o candidato pode ser fiscalizado 24 horas por dias."O fato é que, apesar de a internet ser imprevisível, não pára de crescer como campo de batalha eleitoral.Segundo a empresa americana de pesquisa em meios de comunicação PQ Media, em 2004, os candidatos gastaram US$ 29 milhões em marketing por e-mail e propaganda na rede. Em 2008, a mesma empresa prevê um gasto de US$ 80 milhões.Mas mesmo essa cifra pode não ser nada se comparada com o impacto randômico do buchicho na internet, pelo qual os candidatos não pagam.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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