Cangaceiros reúnem-se em congresso em Brasília

O 1.º Congresso Nacional do Cangaço: Cultura e Memória reuniu hoje protagonistas desse momento da história do Brasil no Museu da República, um dos prédios futuristas projetados pelo arquiteto Oscar Niemeyer na Esplanada dos Ministérios. Um edifício que em nada evoca a paisagem do Nordeste entre o fim do século 19 e começo do 20 (início da República). Trata-se de uma cópia do planeta Saturno e dos anéis, só que totalmente brancos.Um ano depois da emboscada policial feita em Angicos (SE), em 1938, que resultou na morte do capitão Virgolino Ferreira, o Lampião, da primeira mulher a participar de um grupo de cangaceiros, Maria Gomes de Oliveira, a Maria Bonita, e de mais nove integrantes do grupo, um bebê com 30 dias foi entregue ao padre Frederico Araújo, de Tacaratu, no Sertão de Pernambuco, localidade a cerca de 450 quilômetros a oeste do Recife. Um bilhete anônimo, ilustrado com garranchos que imitavam letras, identificava os avós e a mãe da criança, Durvalina Gomes de Sá. Durvalina era Durvinha, cangaceira do bando de Lampião. Com a morte do chefe, caíra na clandestinidade. Fugia da polícia rompendo a caatinga, ora na Bahia, ora em Pernambuco, sempre ao lado do companheiro, Antônio Inácio da Silva, o cangaceiro Moreno.O menino - primeiro dos seis filhos do casal - foi registrado como Inácio Carvalho Oliveira, sobrenome da família que o adotou quando estava com 6 anos, logo depois da morte do padre. Adulto, Inácio mudou-se para o Rio. Entrou para a Polícia Militar. Tornou-se segundo tenente. Há dois anos, com 66 anos e reformado, soube, enfim, que os pais estavam vivos e que formavam o último casal sobrevivente do cangaço. Moravam em Belo Horizonte e chamavam-se Jovina Maria da Conceição e José Antônio Souto, nomes registrados nas carteiras de identidade e com os quais buscaram afastar para sempre os fantasmas do passado.Durvinha, hoje com 92 anos, estava lá no congresso sobre o cangaço, para narrar os feitos; Moreno, de 96 anos, sofreu uma queda pela manhã e teve de ser levado para o Hospital de Base. "Me sinto tão culpada. Ele caiu porque foi pegar um sapato meu. Nós dois já não enxergamos quase nada." A informação do hospital é que Moreno está bem e deve ser liberado para viajar ainda hoje para Belo Horizonte, ao lado da companheira.CracháO crachá da cangaceira registrava o nome que consta da identidade, Jovina Maria da Conceição. O filho Inácio, porém, não a chama assim. Para ele é Durvalina ou Durvinha. Do pai, nem conseguiu se lembrar o nome todo escrito na identidade. "Acho que é José Antônio, e tem um sobrenome aí que não sei. Para mim, ele é o Antônio Inácio da Silva ou o Moreno." Inácio disse que tem por hábito visitar Tacaratu quase todos os anos.Durvinha nasceu em 1915, no povoado de Arrasta-pé, em Curral dos Bois, hoje Paulo Afonso (BA). Ainda mocinha, abandonou a casa dos pais para correr atrás do cangaceiro Virgínio, cunhado de Lampião. "Ele tinha a pele sedosa", contou ela. Não sabe quantos anos tinha na época. "Não havia registro. Era tudo na bruta. A gente se juntou. Não chegamos a ir ao padre." Disse que teve dois filhos com Virgínio, dos quais nunca mais teve notícias depois dos tempos do cangaço. Virgínio foi morto em 1936. "No bando não podia haver viúvas. Pelas leis lá, ou elas se casavam com outro cangaceiro, ou eram mortas. Moreno se propôs a ficar comigo", disse Durvinha. Com ele teve outros seis filhos: Inácio, que só conheceu há dois anos, e outros cinco, todos morando em Belo Horizonte. Durante as fugas pela caatinga, o jeito era pegar um pedaço de rapadura aqui, um punhado de farinha ali, driblar a fome e a polícia. "Morria de medo de ser degolada, como Lampião."No filme Baile Perfumado (1996), direção de Paulo Caldas e Lírio Ferreira, aparecem imagens do bando de Lampião feitas entre 1935 e 1936 pelo libanês Benjamin Abrahão. Numa delas, Durvinha dança com Moreno, embora ainda estivesse na companhia de Virgínio. Noutra parte, Durvinha avança sobre a câmera do cineasta com o revólver na mão. Durante os combates com a polícia, levou um tiro na coxa esquerda. "Minha perna era grossa. A carne rasgou de fora a fora. Os cangaceiros me salvaram jogando um litro de pimenta na ferida. A dor passou." Durvinha disse que só teve uma razão para aderir ao cangaço: a paixão por Virgínio.

JOÃO DOMINGOS, Agencia Estado

30 de novembro de 2007 | 20h38

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