Cantalamessa tem autonomia para falar sem censura

Cantalamessa tem autonomia para falar sem censura

É provável, embora pareça inverossímil para os leitores comuns, que o papa Bento XVI não tenha tido conhecimento prévio do texto da homilia que o pregador da Casa Pontifícia, frei Raniero Cantalamessa, fez em sua presença, na celebração da Paixão de Cristo.

Análise: José Maria Mayrink, O Estadao de S.Paulo

05 Abril 2010 | 00h00

Há 30 anos no cargo, para o qual foi nomeado em 1980 por João Paulo II, o frade goza da confiança do Vaticano e tem autonomia para falar sem censura - o nihil obstat dos escritos eclesiásticos - sobre temas doutrinários e espirituais, como seria, supostamente, o da cerimônia da Sexta-Feira da Paixão.

Admite-se que Cantalamessa tivesse a boa intenção de defender a pessoa do papa, ao citar a carta de um amigo judeu que comparou ao antissemitismo à onda de denúncias de pedofilia e de abusos sexuais cometidos por sacerdotes católicos em vários países.

O que o pregador da Casa Pontifícia pretendia, conforme ele explica, era divulgar um exemplo de solidariedade, vindo de fora da Igreja, ao arcebispo alemão de Munique e posteriormente prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Joseph Ratzinger, eleito papa em abril de 2005.

O que Cantalamessa talvez não esperasse, como ele afirma, era que seu discurso tivesse tamanha repercussão. O estrago foi enorme, em meio à polêmica crescente suscitada pela revelação de novos escândalos e do envolvimento de personagens de destaque na hierarquia, pois a comparação entre as recentes denúncias de pedofilia e as seculares campanhas antissemitas desagradou tanto a entidades judaicas como a representantes das vítimas de abuso sexual praticado por padres. Pedir perdão aos que se sentiram ofendidos era o mínimo que Cantalamessa podia fazer.

Bento XVI não se manifestou sobre o incidente e provavelmente não vai se pronunciar a respeito dele. Não está claro que, ao afirmar ontem, na missa de Páscoa, que "a Igreja, depois da Ressurreição (de Cristo), encontra sempre a história com as suas alegrias e as suas esperanças, os seus sofrimentos e as suas angústias", ele se referisse a seu sofrimento pessoal, provocado por uma campanha que, segundo o Vaticano, visaria responsabilizá-lo por um pecado de omissão

Quanto mais se explica, mais complicada vai ficando essa questão.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.