Capim vira praga no Sul do Brasil

O anoni - que inflama as gengivas no boi - entrou no País em sacos de sementes importadas e se alastra pelo RS, PR e SC

Beth Melo, O Estado de S.Paulo

18 Julho 2007 | 05h15

O trânsito de material vegetal exige cautela, pois pode colocar em risco a atividade agropecuária e o ambiente. Caso de um capim de origem africana, introduzido no Rio Grande do Sul pelo produtor Ernesto José Annoni, que importou da Argentina, em 1950, sementes de rhodes contaminadas com o capim que depois foi batizado como seu nome. ''''Ele percebeu o viço da planta comparado às pastagens nativas, passou a cultivá-la e a vendê-la'''', afirma a pecuarista gaúcha Nara Fauth Pereira, da Estância Boa Vista da Quinta. Já o arquipélago Fernando de Noronha está infestado pela leguminosa Leucena leocucephala, introduzida nos anos 50 em um projeto ambiental e como forrageira para a alimentação animal, e já começa a ter problemas com a jitirana (Ipomeia sp), leguminosa trepadeira que cobre a copa das árvores, impedindo-as de respirar, matando-as. NOS PAMPAS Segundo Rafael Zenni, assistente científico do Programa de Espécies Exóticas Invasoras para a América do Sul da ONG ambiental The Nature Conservancy (TNC), há uma versão de que o capim teria vindo junto com sementes de outras espécies importadas, e outra, de que foi introduzido por meio das fezes de gado argentino que entrou no País sem quarentena. ''''A planta já ocupa quase 2 milhões de hectares nos pampas, de onde se espalhou, no rumem dos animais, e avança por Santa Catarina e Paraná'''', alerta. ''''Muitas fazendas estão tomadas pelo anoni, que acabou com as pastagens nativas'''', sentencia o veterinário Felipe Guerra, da Fazenda Santo Antonio, em Livramento (RS), um projeto de cria, recria e engorda de hereford e braford, que começa a sentir a competição do capim. Aqui, o problema não é só ambiental, mas econômico. ''''Por ser bastante fibroso, o anoni fica preso entre os dentes do animal, causando inflamação da gengiva, levando à perda precoce da dentição.'''' ''''Estamos fazendo aplicação localizada de herbicidas nas áreas onde aparecem as primeiras touceiras e com isso, conseguindo retardar o problema. A entrada do anoni é inevitável'''', afirma Guerra. O problema maior, na sua opinião, são as margens das estradas, verdadeiras sementeiras, que disseminam a espécie. ''''O controle do anoni é difícil; tentamos dissecação, plantio de outras forrageiras, manejo intenso em determinadas épocas'''', reclama Nara, da Boa Vista da Quinta, um criatório de gado de corte e cruzamento industrial. Em algumas áreas ela cultivou braquiária e em locais de alta infestação, introduziu forrageiras de inverno ou de verão ou as duas juntas, mas o anoni continua se espalhando. ''''É necessário um programa de governo para combater essa praga.'''' INVASÃO DA ILHA Segundo a bióloga da administração estadual da ilha de Fernando de Noronha, Maria de Lourdes Alves, a leucena teria sido introduzida para recompor a vegetação dos morros, dizimada pelos militares para evitar a fuga de prisioneiros. Embora a leucena produza sementes de alto valor nutritivo, com 25% de proteína bruta, em Noronha ela é altamente nociva e preocupa ambientalistas dada à agressividade sobre outras espécie s . ''''Na sua raiz tem uma enzima que intoxica o solo.'''' Além de serem espalhadas pelo vento, as sementes são difundidas por meio das fezes do gado, o que torna difícil a sua erradicação. ''''O processo digestivo quebra a dormência das sementes e acelera a germinação'''', diz. A bióloga conta que há um projeto estadual, com início previsto para o começo de 2008, para a recomposição da flora nativa e a erradicação da leucena e da jitirana .

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