Capital paulista está perdendo identidade, diz pesquisa

Habitantes não se sentem acolhidos e criar vínculo com a cidade é cada vez mais difícil, segundo pesquisa

Vitor Hugo Brandalise, de O Estado de S. Paulo,

23 Janeiro 2009 | 08h49

A terra das oportunidades, na opinião de seus próprios habitantes, é também terra da falta de identidade. Divulgada na quinta-feira, 22, a pesquisa Viver em São Paulo, realizada pelo Ibope em parceria com a ONG Movimento Nossa São Paulo, mostrou que um em cada três moradores da capital não se sente acolhido pela comunidade em que vive. Para especialistas, trata-se de típica deterioração das relações entre as pessoas e a cidade, numa metrópole que enfrentou crescimento desordenado, sem o investimento necessário em infraestrutura.   Veja também:  Documento: A íntegra da pesquisa feita pelo Movimento Nossa São Paulo   "As relações foram esfaceladas. Em 1930, a cidade tinha 900 mil habitantes. Hoje, são 11 milhões. E os problemas continuam os mesmos: saneamento básico, acesso a educação, saúde, cultura. Mas a escala é infinitamente maior. A população devolve tratamento agressivo com ainda mais agressividade", afirma o professor Nestor Goulart Reis Filho, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, autor do livro São Paulo: Vila, Cidade, Metrópole. "A noção de bairro, em que a pessoa sabe onde almoçar, onde comprar suas frutas, praticamente não existe mais, especialmente na periferia. Fica a sensação, então, de que ninguém se importa com o local onde vive."   A pesquisa - que entrevistou 1.512 de todas as regiões da capital entre 18 e 29 de novembro do ano passado - também mostrou que 28% da população vê São Paulo apenas como lugar para morar, sem criar vínculos com a cidade. "Falta oportunidade para participar da vida pública. Políticos procuram a metrópole para caçar votos, mas não se comprometem com o local em que buscou eleitores", afirma Goulart. "Como vou sentir que a cidade é minha se não posso cuidar dela?"   O resultado, como aponta o idealizador da pesquisa, o diretor do Movimento Nossa São Paulo, Oded Grajew, é que 46% dos entrevistados disseram querer se mudar da cidade se tiverem a chance. "A relação é de amor e ódio. Todos querem trabalhar aqui, mas, no primeiro feriado, correm para longe." A nota geral para a qualidade de vida na cidade foi 6,7.   Crise   Em relação às últimas pesquisas, uma nova preocupação surgiu entre os entrevistados: a crise econômica. Em janeiro do ano passado, 45% dos entrevistados estavam preocupados com o desemprego - agora, foram 58%. A sensação de diminuição na renda também aumentou - na pesquisa anterior, 15% temiam queda na renda; na pesquisa de novembro, a proporção subiu para 27%.   O trânsito continua com os mais altos índices de rejeição - nesse quesito, 83% da pessoas se disseram "muito insatisfeitas". A nota para o tema foi 3,3 e o tempo médio apontado para se deslocar na cidade foi de 2 horas e 47 minutos. "Sentir-se imobilizado corrói aos poucos a relação entre morador e metrópole", disse Grajew.   Demonstrando a relação de amor e ódio entre o morador e sua cidade, de maneira geral, o paulistano se disse "satisfeito" - 60% contam se sentir bem quanto ao que já realizou na cidade. A satisfação, porém, é mais positiva quanto maior a renda do entrevistado. "Mostra que a desigualdade continua presente na vida do morador de São Paulo."

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