Luciano Coca/AE
Luciano Coca/AE

Caqui taubaté ainda resiste

Variedade apreciada sobretudo no Rio é produzida em Taubaté (SP), com safra, porém, cada vez menor

João Carlos de Faria, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2009 | 02h47

A expansão urbana levou à decadência a cultura do caqui taubaté, variedade que destacou no mercado de frutas a cidade do mesmo nome, localizada no Vale do Paraíba (SP). A cultura foi tão importante para a cidade que, na década de 80, a prefeitura chegou a organizar duas festas para promover o caqui taubaté. O cultivo dessa variedade marcou época, chegando à marca de 850 mil caixas/ano, com pomares que somavam 80 mil pés. Quase toda a produção era vendida no Rio de Janeiro, onde o caqui taubaté é muito apreciado, pelo sabor incomparável e pela quantidade de água, maior que em outras variedades. Ali é servido gelado, como sobremesa em restaurantes cariocas.

Os pomares de taubaté se espalhavam principalmente pelos bairros da Independência e do Barreiro, cortados pela Rodovia Presidente Dutra, onde ainda é possível encontrar alguns poucos exemplares da planta, espalhados por chácaras praticamente urbanas. Algumas mantêm parte dos antigos pomares, com produção comercial, e outras, apenas algumas árvores. "Quando meu pai comprou a chácara ainda havia mais de 20 pés, remanescentes do pomar de uma antiga fazenda. Restaram esses 7 pés, que conservamos como raridade", afirma a comerciante Maria Fernanda Barra. Ela tem uma chácara no Caminho dos Caquizeiros. As árvores, que ainda produzem muitos frutos, fazem a festa da família e dos amigos. "Não me desfaço delas", diz.

Segundo o agrônomo Glênio Wilson de Campos, que atualmente chefia o Serviço de Produção de Sementes da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati), em Taubaté, a variedade teria surgido no fim do século 19, quando o italiano Eugênio Davi chegou ao município e descobriu, na região, três plantas, as quais multiplicou, dando origem ao caqui taubaté, reconhecido como variedade em 1951 na 1ª Reunião Técnica do Caqui, na Esalq/USP, em Piracicaba. "Foram comparadas diversas variedades e nenhuma apresentava as mesmas características da desenvolvida aqui, surgindo então a variedade taubaté", explica.

"O crescimento da cidade fez com que o produtor saísse das áreas de maior produção", diz a agrônoma Maria de Fátima Santos Cardoso Rosa, da Casa da Agricultura de Taubaté. Alguns produtores, no entanto, ainda resistem. O produtor José Gonçalo, por exemplo, conserva mil pés, dos quais colheu neste ano 800 caixas, a maior parte enviada ao mercado do Rio de Janeiro.

Outro que até andou investindo na reforma do pomar foi o produtor Benedito Mathias, do mesmo bairro, que fez um financiamento para melhorar a produção de seus mil pés, que chegaram à média de 4 caixas por pé. Nesta safra apenas 500 pés produziram, pois os demais foram queimados, num incêndio criminoso.

Aos 72 anos, com 40 mexendo com caqui taubaté, Matias deixou de mandar a produção para o Rio e comercializou as mil caixas que colheu neste ano em Taubaté. Vendendo na própria cidade, ele conseguiu R$ 15 por caixa; a venda no Rio lhe renderia metade disso.

O produtor Nelo Biondi, de 72 anos, é um dos mais tradicionais da variedade na região. Ele afirma ter nascido em meio aos pomares de caqui taubaté. Seu pomar, com 3.500 pés, em Redenção da Serra, porém, está abandonado. "Além do desânimo com o preço, ele não tem mais saúde para tocar o pomar", diz sua esposa, Amanda Biondi. O produtor já chegou a mandar 1.200 caixas por dia para o Rio de Janeiro, num tempo em que o Ceasa de lá esperava chegar o caqui taubaté para fazer a cotação. "Éramos nós que ditávamos o preço no Rio", recorda-se, saudoso.

INFORMAÇÕES:

Casa da Agricultura

Telefone (0--12) 3633-3449

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