Cardeal é intimado a provar declarações

Associação entre pedofilia e homossexualidade feita pelo número 2 do Vaticano recebe críticas de políticos, médicos e manifestantes

SANTIAGO, O Estado de S.Paulo

14 Abril 2010 | 00h00

Um dia após o cardeal Tarcisio Bertone - a segunda maior autoridade da Igreja Católica - causar polêmica no Chile ao atribuir à homossexualidade, e não ao celibato dos padres, a razão para os casos de pedofilia no clero, políticos, médicos e movimentos pró-diversidade sexual de vários países exigiram do secretário de Estado do Vaticano que mostrasse as provas que vinculam a homossexualidade à pedofilia.

"A pedofilia é um transtorno mental de índole sexual que afeta tanto homossexuais quanto heterossexuais", disse o senador democrata-cristão chileno Patricio Walker. "Gostaria de conhecer os estudos científicos que ele (Bertone) diz ter." O deputado comunista Hugo Gutiérrez disse que "o celibato faz mais dano a um ser humano do que uma condição de homossexualidade".

O líder do Movimento de Integração e Libertação Homossexual, Rolando Jiménez, pediu que o cardeal mostrasse "algum informe científico, rigoroso, sério e independente" que corroborasse suas declarações. Médicos também descartaram o vínculo. "Não me parece possível pensar que haja uma relação direta entre a homossexualidade e a pedofilia", afirmou a médica-legal Tamara Galleguillos.

Na Itália, as declarações também foram rechaçadas por partidos políticos de todos os espectros. A deputada Anna Paola Concia, do Partido Democrático, pediu que o cardeal retirasse suas declarações "violentas, inumanas e graves". Para ela, a análise de Bertone é "baseada em teses falsas, desmentidas pela Organização Mundial da Saúde e que não são compartilhadas pela maioria dos católicos."

Sem transtorno. A homossexualidade é uma orientação sexual, não um transtorno mental - caso da pedofilia, prevista no Código Internacional de Doenças da OMS. Segundo a classificação, a pedofilia pode se manifestar em relação a meninos, meninas ou a ambos os sexos.

"A associação é uma tentativa de estigmatizar a homossexualidade", diz o psiquiatra Claudio Cohen. "A homossexualidade é saudável, a pedofilia, não. O papa terá de pedir desculpas por mais esse erro", afirma o psiquiatra Paulo Sampaio. "O Vaticano, em situação crítica, tenta desviar a discussão para a homossexualidade", afirma o antropólogo Luiz Mott, fundador do Grupo Gay da Bahia. "Não condiz com a moral cristã, é uma conduta perniciosa. Que se investigue os padres, pastores, pais de santo e os machões pedófilos". / FABIANE LEITE, com AFP e EFE

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.